quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Limpezas difíceis

Uma empregada obtusa e persistente, uma porta teimosa que não se deixa limpar.

Uma metáfora para o estado das coisas neste país?

terça-feira, 7 de agosto de 2007

5 Estrelas da Blogosfera

Recebi este texto do Lord Broken Pottery, que me deu a honra de incluir-me nos seus 5 nomeados para este prémio. Devo transcrevê-lo aqui e indicar, por minha vez, os 5 blogs que eu recomendo. Aqui ficam, portanto, o texto e as nomeações.
"O dia 31 de Agosto foi escolhido para ser o dia do blog, este foi criado na convicção de que os bloggers deverão ter um dia dedicado ao conhecimento de novos blogs, de outros países ou áreas de interesse. Então para dar uma esquentada neste dia eu resolvi criar um prêmio que consiste em escolher os cinco blogs, 5 estrelas da blogoesfera, e no dia 31 de agosto de 2007 será a divugação dos blogs escolhidos seguindo as regras abaixo. Regras do prêmio blog 5 estrelas:

1. Podem participar na votação todos os bloggers que mantenham blogs ativos há mais de um mês [os outros esperem por outra ideia brilhante que alguém irá ter].
2. Cada blogger deverá referenciar cinco nomes de blogs. A cada menção corresponde um 1 voto.
3. Cada blogger só poderá votar uma vez, e deverá publicar as suas menções no seu blog [da forma que melhor desejar], enviando-as posteriormente para o seguinte e-mail: elzinhalinda@gmail.com. No e-mail, além da sua escolha, deverão indicar o link para o post onde postaram as nomeações. A data limite para a publicação e envio das votações é dia: 27/08/2007.
4. De forma a reduzir alguns constrangimentos [e desplantes], e evitar algumas cortesias desnecessárias, também são considerados votos nulos:- Os votos dos blogger(s) em si próprio(s) ou no(s) blogue(s) em que participa(m);- Os votos no blog Nada pra mim.
5. Cada blog que for indicado ou indicar, deve conter de onde veio a origem do concurso, ou seja deverão manter um link para este blog afim de que outras pessoas possam conhecer a idealizadora da idéia. No dia 31.8.2007 serão anunciados os vencedores. "

Os meus escolhidos (uma vez que esta ideia partiu de um blog do Brasil, nomeio apenas blogs portugueses, cumprindo assim o objectivo da divulgação - a razão de ser deste prémio):

- Africanidades, do Jorge Rosmaninho
- O Boato, d0 Alexandre Borges
- O Rosto da Cidade, do J.G.
- Geração Rasca, de Vários
- Ultraperiférico, de Vários

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Paranóia


domingo, 5 de agosto de 2007

Imagine


Desculpem a insistência, mas ando numa onda de Pedro Guerra. Nada a fazer, é uma coisa recorrente. São óptimas as músicas, as letras e os arranjos, e a voz é desconcertante de tão intimista e sem artifícios.

A verdade é que me dá um enorme prazer ouvir este eterno menino que faz música como gente grande e com gente grande da música (e até uma banda sonora chamada Mararia, para o filme do mesmo nome, que recomendo a todos). Os primeiros cd's - Golosinas, Tan cerca de mi, Raiz e Mararia - continuam a ser os meus preferidos.

Aqui fica a canção "Las gafas de Lennon" (do Golosinas), para todos os que viveram a euforia dos Beatles e de um tempo mágico, em que tudo era possível.

E ainda é, digo eu. Apesar de improvável.
Subam o som e ouçam:
http://www.goear.com/listen.php?v=7427fa0
(tem que ser assim, o GoEar parece que continua de férias)

sábado, 4 de agosto de 2007

Quedas

Os jornais trazem-nos a notícia de que Mijail Gorbachov é uma das mais recentes estrelas da campanha publicitária da marca Luis Vuitton. O cenário escolhido (pelo próprio, ao que parece) foi o muro de Berlim, ao longo do qual se passeia numa limusine, tendo ao lado um dos mais desejados e imitados acessórios de viagem de todos os tempos - um clássico saco de viagem Vuitton. Consta que Gorby teve que ser convencido a dar a cara por esta marca, e que elegeu o muro de Berlim como fundo, por se orgulhar de ter sido um dos principais artífices da sua queda.
Depois de Gorbachov, Catherine Deneuve e o casal André Agassi-Steffi Graf, a Vuitton está já a pensar em novas personalidades para a sua bem sucedida campanha, e pensa endereçar um convite a Bill Clinton. Não se sabe qual será o cenário escolhido por este, mas tenho uma sugestão: o vestido azul de Mónica Lewinsky, que ele também fez cair com tanto estrondo.

Prémios Porta do Vento - III

E cá vão mais dois prémios, os últimos desta primeira fornada:


Prémio ELEGÂNCIA E NOBREZA - atribuído ao Blog Lord Broken Pottery

Prémio IRREVERÊNCIA - atribuído ao blog Azeite & Azia

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Coisa rara


Coisa rara

Não tá no jeito de olhar eu sei que não
Não tá no gosto paladar também tá não
Não é um brinde de esperança ou sedução
Mas tem um quê de coisa boa tentação
É como filme que começa eu sei que é bom
Mas o final quem é que sabe
A direção é coisa rara
O nosso encontro é coisa rara

A gente é gente diferente
A nossa história é só da gente
É sem legenda ou tecla SAP
Assim de fora é bem maluco
Meio tarado como eunuco
É solidão na multidão

Enquanto um vice o outro versa
Enquanto um cala outro confessa
E a gente fica nesta espera
Discutindo o não vivido
Verso quebrado corpo ungido
E se doer eu sei que sara
Porque a gente é coisa rara
O nosso encontro é coisa rara
O nosso amor é coisa rara

(Tatiana Rocha)
Para ouvir a música, clicar aqui

(Nota: Imagem - "Os amantes", de Magritte)

Prémios Porta do Vento - II

Mais Prémios Porta do Vento:
Prémio ABRAÇO ATLÂNTICO - atribuído ao blog Sub Rosa, da MEG

Prémio AMIGOS DE ALEX - atribuído ao blog Arre Burro , do Baleal


Prémio TERNURA - atribuído ao blog Peter Pan e outras histórias , do João R. Andrade


Prémio ORIGINALIDADE E BOM GOSTO - atribuído ao Blog da Sabedoria , do J.G


Prémio CORAGEM - atribuído ao blog Devagar, mas com confiança , da Flora


Prémio REVELAÇÃO - atribuído ao blog Juro que tenho mais que fazer , da Madalena


Prémio EXCELÊNCIA BLOGUÍSTICA - atribuído ao blog Miniscente, do Luis Carmelo



Notas: A decisão do júri é soberana. Os prémios encontram-se à disposição dos contemplados e podem ser levantados a qualquer hora aqui na Porta do Vento, que nunca fecha. Se não forem reclamados no prazo de um mês, não acontece nada.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Prémios Porta do Vento - I

Vejam esta pérola do João Paulo Cardoso/Eldorado, com muita graça, como muitas outras que ele escreve:

"Que povo é este, que engole 6 telenovelas ao serão? Serão chuva, serão gente?
Gente não são, certamente. E a chuva não mata assim."
E por isso é com ele que se inauguram os Prémios Porta do Vento, exactamente com o

Prémio HUMOR - atribuído ao blog Eldorado

Podes levá-lo para casa, JP. É teu.
Como, não faço ideia. Desenrasca-te.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Diamonds are a girl's best friends

A fazer fé nos astrónomos Travis Metcalfe, Christine Pulliam e Ruth Bazinet, do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, foi encontrado um diamante com uma classificação intraduzível (pelo menos por mim): "10 billiontrillion trillion carats"!!!!! A cósmica preciosidade é, nada mais nada menos, do que o núcleo, de carbono puro, de uma estrela anã branca.
Depois desta descoberta, mesmo sabendo que vai pesar-me um bocadinho no dedo, não aceito nada menos do que isto. Lamento, sou exigente.
Aposto que quem já deve estar a pensar comprar o diamantezinho é a nossa amiga Liz Taylor...

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(Marilyn Monroe - Diamonds are a girl's best friends)

Parabéns, Ney

Ney Matogrosso faz hoje 66 anos. Parabéns!

Enzima da amizade

Este post é uma gracinha especial para a minha amiga Regine Limaverde, cientista e poeta do Brasil, que me escreveu agora mesmo da Suécia. E que vem a Portugal de passagem, por um dia só, antes de voltar para casa.
Cá te espero, querida. Tudo a postos para te receber: até uma passadeira vermelha já encomendei, de Lisboa ao Estoril...
Enzima

Existe uma enzima
dentro de mim.
Sendo enzima
quebra e constrói
e sua ausência
em meu peito dói.

A baixo pH
poderá se desnaturar
não quero que isto
aconteça.
Nesse sentido
hei de trabalhar.

Minha enzima
me enche de poesia.
Tece laços energéticos,
ataca pontos estratégicos,
me ilumina, me fermenta.
Com ela eu rio,
de tristezas esqueço.
Sinto que vôo, cresço.

Ela não requer
energia de ativação,
o meu coração basta
para iniciar a reação.

Não tem porção metálica.
Não precisa de cofator.
Ela foi feita sob medida
à base de muito amor.

É eterna, não se acaba,
é única
e é rara.
E me é muito cara.

É. Existe uma enzima
dentro de mim
e eu amo
essa enzima.

(Regine Limaverde)

PS: Gostou da surpresa, amiga?

terça-feira, 31 de julho de 2007

É hoje!

Já tenho ouvido de tudo um pouco, mas por esta, confesso, não esperava: hoje, dia 31 de Julho, é o dia nacional do... Orgasmo!!!

Não tenho grandes comentários a fazer, dado o ridículo da questão, a não ser que foi inevitável ter-me lembrado daquela velha anedota do homem de meia-idade que conta ao seu médico, sorridente, que só faz amor uma vez por ano. O médico estranha a anacrónica alegria por aquilo que deveria ser uma enorme frustração, e pergunta ao paciente o porquê de tal reacção. O homem responde, radiante: Ó doutor, é que... é hoje, é hoje!!
Quem sabe se quem se lembrou de um dia nacional para o orgasmo não é o tal homem da anedota, e... é hoje??
Divirta-se, amigo!

O eclipse de Antonioni


Por alguma estranha razão, este abrasador final de Julho está a levar-nos os realizadores de cinema da chamada "velha guarda", aqueles monstros sagrados que nos deram tantas e tão boas horas de prazer.
Primeiro foi Ingmar Bergman, agora Michelangelo Antonioni. Morreu tranquilamente em Roma, aos 94 anos - bonita idade, apesar de tudo, que lhe permitiu uma longa vida a fazer aquilo que tão bem sabia fazer e de que tanto gostava. Apesar de ser formado em economia pela Universidade de Bolonha, acabou por apaixonar-se pelo cinema quando se mudou para Roma e estudá-lo a fundo, na Cinecittà, dedicando toda a sua vida a essa paixão, depois disso.
De entre os seus filmes mais conhecidos não posso deixar de destacar Blow Up (1966 - o seu primeiro filme de língua inglesa), um clássico do cinema que nos revela uma surpreendente Jane Birkin ainda muito no início de carreira, contracenando com duas grandes actrizes: Vanessa Redgrave e Sarah Miles. Blow Up deu ao realizador um dos muitos prémios com que foi agraciado - a Palma de Ouro do Festival de Cannes, em 1967.
Ao contrário de Bergman, Antonioni viu o conjunto da sua carreira premiado com um Óscar da Academia, em 1995.
Eclipsou-se assim, sem ruído nem surpresa, depois de muitos anos de uma doença que o impediu, nas últimas décadas, de realizar e de realizar-se.


Principais filmes:

Escândalo de Amor (1950)
O Grito (1957)
A Aventura (1960)
A Noite (1961)
O Eclipse (1962)
O Deserto Vermelho (1964)
Blow-up (1966)
Identificação de uma Mulher (1982)

A lucidez perigosa


De novo Clarice Lispector, que estou a ler e com quem ando muito sintonizada. Este texto é belíssimo e de uma enorme profundidade. Não é bem um poema (antes uma prosa poética), embora a sua estética o remeta definitivamente para a Poesia.
Há fases assim, de uma visão extra-lúcida das coisas. De pura clarividência. Suponho que todos passamos por elas alguma vez, são aquelas que antecedem uma criação ou um acontecimento muito especial. Um encontro com o que somos por dentro, um olhar mais atento no espelho de todos os dias.
Mas atenção: para quem não sabe, não pode ou não quer enfrentar-se, fica o aviso - a lucidez pode matar.
A lucidez perigosa

Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise.
Estou, por assim dizer, vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço.
Além do que: Que faço dessa lucidez?

Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano - já me aconteceu antes.

Pois sei que - em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade - essa clareza de realidade é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis.
Eu consisto,
Eu consisto,
Amén.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

La terre est bleue comme une orange


La terre est bleue

La terre est bleue comme une orange
Jamais une erreur les mots ne mentent pas
Ils ne vous donnent plus à chanter
Au tour des baisers de s'entendre
Les fous et les amours
Elle sa bouche d'alliance
Tous les secrets tous les sourires
Et quels vêtements d'indulgence
À la croire toute nue.
Les guêpes fleurissent vert
L'aube se passe autour du cou
Un collier de fenêtres
Des ailes couvrent les feuilles
Tu as toutes les joies solaires
Tout le soleil sur la terre
Sur les chemins de ta beauté.
Oeil de sourd
Faites mon portait.
Il se modifiera pour remplir tous les vides.
Faites mon portrait sans bruit, seul le silence,
A moins que - s'il - sauf - excepté -
Je ne vous entends pas.
Il s'agit, il ne s'agit plus.
Je voudrais ressembler
- Fâcheuse coïncidence, entre autres grandes affaires.
Sans fatigue, têtes nouées
Aux mains de mon activité.

Paul Eluard, L'amour la poésie (1929)

Sonho de uma Noite de Verão


Aos 89 anos morreu, esta madrugada, Ingmar Bergman, o realizador que mais e melhor notabilizou o cinema nórdico.
Deixa-nos uma herança composta de muitos e belíssimos filmes, numa visão pessoalíssima dos dramas humanos, em todos os seus cambiantes. Mas não só. Bergman revelou sempre um carinho e interesse muito especiais pelo universo feminino, pela sua complexidade e infinitas nuances. Por contraste com as personagens masculinas dos seus filmes, muito mais tipificadas, as mulheres de Bergman são sempre ricas de contrastes, movem-se e evoluem na trama com surpresa e desenvoltura. A sua maior musa foi Liv Ullmann, a quem ofereceu, ainda há pouco tempo, talvez o papel mais importante da sua vida de actriz: o de Marianne, em Saraband (uma espécie de continuação, muitos anos depois, do filme Cenas da Vida Conjugal, embora com diferenças essenciais que impedem a sua classificação como "sequela" deste).
Mas Bergman não se esgotou no cinema: foi também escritor, director artístico e encenador de teatro, tendo levado à cena inúmeras e importantes peças de teatro e óperas.
A sua vasta obra somou prémios internacionais de prestígio e foi aclamada por todo o mundo, embora a Academia de Hollywood lhe tenha negado sempre o Óscar (para o qual foi nomeado, por várias vezes).

Partiu numa noite de Verão, talvez sonhando ainda. Ficam os seus filmes, vencendo por ele o Tempo, para lembrá-lo e nos deliciar.
Legendas:
1. Em cima - Bergman, durante a rodagem de Morangos Silvestres (1957).
2. Em baixo - Os estúdios Rasunda, nos arredores de Estocolmo, berço de grande parte da sua filmografia.

domingo, 29 de julho de 2007

Prémios Porta do Vento


Mais um domingo, mais um dia de dolce fare niente.
Talvez por isso, hoje deu-me para inventar isto: já que estão tão em voga os prémios bloguísticos, vou armar em juíza e instaurar os
PRÉMIOS PORTA DO VENTO
Nada de "blog com tomates" ou com outras hortaliças ainda menos edificantes, "blog pensante" e outros clássicos da blogosfera. Os prémios Porta do Vento serão oferecidos aos blogs de que mais gosto, em vários aspectos, ou, pelo contrário, àqueles de que gosto menos ou me chocam por alguma razão. Não há categorias fixas nem regulamento: o Porta do Vento é um espaço livre, felizmente em permanente mutação, ao sabor de impulsos e de momentos mais inspirados.
Logo se verá o que sai daqui, nem eu sei. E que ninguém se melindre por receber um prémio menos simpático, ou por não receber aquele que mais gostaria de ter: esta brincadeira vale o que vale, ou seja, RIGOROSAMENTE NADA!
Deixo à votação os símbolos que se seguem, para quem quiser opinar:

Se não chegar a nenhuma conclusão válida ou houver empates, a minha decisão é soberana. Que haja ao menos um sítio onde eu ainda mande alguma coisa...
Pronto, votem. E não façam como nas últimas autárquicas de Lisboa, se não mando vir uma camionete de Alguidares de Baixo cheia de reformados delirantes, prontos a dar vivas a esta ideia depois de uma almoçarada de coiratos.

Nota acrescentada à noite - Os símbolos também podem ser estes, em conjunto e representando várias categorias:







sábado, 28 de julho de 2007

Confesso

68%How Addicted to Blogging Are You?

Pronto, confesso.

Tenho andado a fugir à ideia de avaliar a minha adicção, mas acabei por enfrentar a fera. E convenhamos, há coisas piores...

Privilégio








Às vezes, o hábito faz-me esquecer o privilégio raro que é viver num sítio como este.
Hoje a baía de Cascais está especialmente bonita, com um céu de um azul intenso e imenso.
Como harina, como pan, algo bueno que no pides e se dá...
Pedro Guerra, ajudas-me a celebrá-la como ela merece?
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Perigo iminente


São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher...
(Vinicius de Moraes)
Nota: A lua cheia de hoje está mesmo um perigo. Iminente e eminente.

Palavras, para quê?

AMÁLIA, A TUA VOZ

Vem das sombras do Tempo
Da memória da Terra
Essa força que encerra
Amália, a tua voz

Amália, a tua voz
Não tem nome ou idade
É toda liberdade
É mar, sopro de vento

Tem a cor das palavras
Murmuradas nos sonhos
É de mel e medronhos
Amália, a tua voz

Amália, a tua voz
Sabe a água das fontes
Cheira a urze dos montes
E a roseiras bravas

É rastilho veloz
Que ateia um fogo posto
É poente de Agosto
Amália, a tua voz

Amália, a tua voz
Chora todos os prantos
Rasga todos os mantos
Que nos escondem de nós

É colcha de Viana
Ricamente bordada
É renda delicada
Amália, a tua voz

Amália, a tua voz
É madeira entalhada
Cordão de oiro, arrecada
Da melhor filigrana

Caravela ou fragata
Onde embarcam desejos
É promessa de beijos
Amália, a tua voz

Amália, a tua voz
É sangue, é vinho novo
É a alma de um povo
Que a cantar se desata


Nota: Apesar do título que escolhi para este post, atrevi-me a juntar a esta pérola que tentei descaradamente roubar daqui (e que acabou por ser-me oferecida, com a maior simpatia) umas palavras minhas de homenagem a Amália, que escrevi quando ela morreu. Quando ela morreu, digo eu? Não, que ela está ainda bem viva e anda por aqui a tentar perceber esta coisa dos blogs (fazendo, tenho a certeza, os mais espirituosos comentários sobre esta alienação colectiva...). Aqui ficam essas palavras, então, a assinalar mais um ano sobre o seu nascimento. Que é mais ou menos por agora, ninguém sabe ao certo quando nem ela própria sabia, o que só acrescenta mistério e graça à sua imagem. Parece que foi, seguramente, no tempo das cerejas.
Recostem-se, aumentem o som e ouçam, com toda a calma e sem interrupções. Até o Gershwin deve estar a babar-se...




(in Porgy and Bess, de George Gershwin)

Roleta russa


Para quem, como eu, não conhecia praticamente nada sobre este problema, a enviada especial deste blog no Brasil conta o que se passa por lá.
E ainda nós nos queixamos...


sexta-feira, 27 de julho de 2007

Zoom

Definitivamente, a política não aguenta ser vista à lupa. O zoom é quase sempre um espectáculo sórdido.

Clarice, a grande


Escolhi estes pequenos trechos de um dos Contos de Clarice Lispector - Os Desastres de Sofia* - que descreve, com suprema mestria, a fantasia aterradora e hipnótica do primeiro amor e da primeira vertigem sensual. Neste caso, tudo inspirado por um professor (fascinado com uma redacção criativa da aluna precoce), e ensombrado por sentimentos de confusão, culpa e vergonha. Deliciem-se com este tratado de psicologia da adolescência:
«Não consigo imaginar com que palavras de criança teria eu exposto um sentimento simples mas que se torna pensamento complicado. Suponho que, arbitrariamente contrariando o sentido real da história, eu de algum modo já me prometia por escrito que o ócio, mais que o trabalho, me daria as grandes recompensas gratuitas, as únicas a que eu aspirava. É possível também que já então meu tema de vida fosse a irrazoável esperança, e que eu já tivesse iniciado a minha grande obstinação: eu daria tudo o que era meu por nada, mas queria que tudo me fosse dado por nada. (...)
Calmo como antes de friamente matar, ele disse:
- Chegue mais perto...
Como é que um homem se vingava? Eu ia receber de volta em pleno rosto a bola de mundo que eu mesma lhe jogara e que nem por isso me era conhecida. Ia receber de volta uma realidade que não teria existido se eu não a tivesse temerariamente adivinhado e assim lhe dado vida.(...)
Ele me olhava. E eu não soube como existir na frente de um homem. Disfarcei olhando o tecto, o chão, as paredes, e mantinha a mão estendida porque não sabia como recolhê-la. Meu fio de esperança era que ele não soubesse o que eu tinha feito, assim como eu mesma já não sabia, na verdade eu nunca o soubera. Naquele tempo eu pensava que tudo o que se inventa é mentira, e somente a consciência atormentada do pecado me redimia do vício. Abaixei os olhos com vergonha. Preferia sua cólera antiga, que me ajudara na minha luta contra mim mesma, pois coroava de insucesso os meus métodos e talvez terminasse um dia me corrigindo: eu não queria esse agradecimento que não só era a minha maior punição, por eu não merecê-lo, como vinha encorajar minha vida errada que eu tanto temia, viver errado me atraía.(...)
Na minha impureza eu havia depositado a esperança de redenção nos adultos. A necessidade de acreditar na minha bondade futura fazia com que eu venerasse os grandes, que eu fizera à minha imagem, mas uma imagem de mim enfim purificada pela penitência do crescimento, enfim liberta da alma suja de menina. E tudo isso o professor agora destruía, e destruía meu amor por ele e por mim. Minha salvação seria impossível: aquele homem também era eu. Meu amargo ídolo que caíra ingenuamente nas artimanhas de uma criança confusa e sem candura, e que se deixara docilmente guiar pela minha diabólica inocência... Com a mão apertando a boca, eu corri pela poeira do parque.»

Nota: Se não tiver o livro (Contos, Clarice Lispector, editora Relógio d'Água) pode ler este* conto na íntegra, aqui.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Dia de...


Parece que hoje é o "Dia dos Avós" (deviam ser todos, mas enfim...). A moda pegou mesmo, hoje em dia tudo tem que ter um dia especial (quando será o dia do pardal-de-telhado-com-uma-asa-partida?).
Rendo-me. E, como acho que este é daqueles que é mesmo merecido, aqui fica a minha homenagem aos avós:
A velhice é isto: ou se chora sem motivo, ou os olhos ficam secos de lucidez.
(Miguel Torga)
Nota: Repito esta fotografia porque a acho maravilhosa, e não atribuo créditos por não saber quem é o fotógrafo nem o modelo.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Paraíso


Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.
Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!
Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...
Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.
(David Mourão-Ferreira)


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(Pedro Guerra - Deseo)

Limites




O que me consterna, às vezes, é observar que o génio tem limites e a estupidez não.


(Alexandre Dumas)

Bom ar


Que bem se come no Porto!

Jantei ontem, com amigos inestimáveis, no muito in restaurante "D'Oliva", em Matosinhos. Aderindo a uma onda cada vez mais na moda, retoma a tradição da boa cozinha mediterrânica, a abrir logo com um pratinho de azeite aromatizado para molhar o pão e fazer boca para o que se segue. Belo jantar e melhor vinho, que eu não conhecia: Quinta dos Bons Ares.

Tudo, afinal, com muito bom ar.


segunda-feira, 23 de julho de 2007

Índia




Nunca estive na Índia. Por mais do que uma vez planeei aquela que é "a viagem da minha vida" e no entanto, por qualquer estranha razão, sempre teve que ser adiada. Mas não tenho pressa. Sei que, quando finalmente for, saberei que estou em casa. Não me peçam para explicar: uma certeza antiga, uma comoção subterrânea e imensa, desde sempre me segredam essa pertença. Um dia, tenho a certeza, vou dar-lhes ouvidos e deixar-me encantar.

domingo, 22 de julho de 2007

Passa. Entra.

Por mais voltas que dê, por mais música que ouça, acabo sempre por voltar a Pedro Guerra porque nunca me canso de ouvi-lo.

Hoje estou num desses dias em que só ele me enche as medidas.
Passa. Entra. Alguma forma encontrarás para passar por esta porta.
Lindo.
Ouçam até à exaustão, ou até saber de cor. Vão dar-me razão, tenho a certeza.

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Imagem - "Rooms by the sea", de Edward Hopper

sábado, 21 de julho de 2007

A Salgada Família

Que novas surpresas nos reservará ainda este can-can tripeiro? O país está em pulgas para saber qual o próximo elemento desta Salgada Família a sair da gruta: O burro? A vaca? A própria manjedoura?



Primeiro foi a loira Carolina, a "Eu". Depois de um estrondoso abandono, seguido de um make-over apressado, passou de Ágata a Virna Lisi, e, de novo virgem, publicou confissões entre escaldantes e sopeirais, na primeira pessoa, virou do avesso o todo-poderoso ex-amante, desafiou os feudos e os tabus da futebolândia, armou um pé de vento no país inteiro e ressuscitou, até, processos judiciais moribundos. Todos tememos nesses dias pela vida dela, coitadinha. Tão corajosa, tão desamparada, tão ultrajada e tão sinceramente arrependida dos pecados idos, a menina.
Depois, tudo acalmou. A ebulição passou a fervura lenta, controlada, com os livros a venderem-se como pãezinhos quentes e uma novela em preparação, para memória futura e futuro pé-de-meia da loira e pura Carolina.
Mas afinal havia outra, como diria a Mónica Sintra. O país esfregou os olhos, incrédulo e baralhado com a versão morena da heroína tripeira. Entrou em cena Ana Maria, a "Outra", e não quis ser menos do que a mana gémea: desmentiu e denunciou a irmã famosa e egoísta que lhe abortou negócios promissores, embrulhou a editora Dom Quixote e o presidente do Benfica em tramóias escusas e patrocínios duvidosos, defendeu o todo-poderoso ex-amante da mana, falou de milhões e revelou ainda mais segredos escabrosos.
Complicou-se o enredo da novela, que já tinha guião avançado, e tudo voltou à estaca zero. Para muitos de nós, atentos mas confusos espectadores, a morena parecia mesmo um novo coelho (ou melhor, uma nova bunny) saído da cartola do todo-poderoso ex-amante da loira. Seria? Talvez, que o tripeiro não costuma dar-se por vencido com tanta facilidade, e muito menos por uma alternadeira que passou do cabaret ao convento enquanto o diabo esfrega um olho.
Mas o guião da novela ainda não era definitivo: Com uma invulgar aptidão para a ribalta, eis que a família lança mais um actor no palco - o progenitor das meninas. Contrito, confessa ao jornalista que está muito incomodado com tudo o que está a acontecer. É natural, pensamos todos, nenhum pai gosta de ver as filhas assim expostas ao ridículo e à devassa das suas vidas privadas, por muito pouco recomendáveis que elas sejam. Isto custa-me muito, diz Joaquim Salgado, o "Pai". Baixamos os olhos, numa envergonhada mea culpa pelo nosso pecaminoso voyeurismo. Mas, de repente, o homem esquece-se da pose ensaiada: com um sorriso sardónico que revela um íntimo prazer, põe-se a dizer mal da filha morena. Que já teve direito a internamento psiquiátrico, que enganou a irmã loira-coitadinha, que passou a referir-se, de repente, ao todo-poderoso ex-amante da irmã loira-coitadinha como "o sr. Jorge", quando lhe chamava sempre, até há bem pouco tempo, "o boi" ou "o velho", e que isso traz óbvia água no bico. Hein, não acha estranho?, e pisca o olho ao jornalista, num trejeito revelador. Logo a seguir confunde tudo, e acaba por desvendar o verdadeiro motivo de tanta aversão à filha morena, subitamente amiga do todo-poderoso ex-amante da loira-coitadinha: Se eu falasse... os primeiros 13 minutos daquele jogo Boavista-Porto, uma vergonha... eu é que não queria ser árbitro daquilo... sim, o Boavista é o meu clube... não puxe por mim, não posso dizer mais nada.
Acaba embargado pela comoção da injustiça contra o seu clube de futebol, já completamente esquecido das filhas. E nós todos, acabamos boquiabertos com tanta sensibilidade. Angustiados, perguntamo-nos: E agora, quem virá a seguir?
Aguardam-se, pois, novos capítulos desta novela, cujo guião permanecerá em aberto enquanto houver membros da família que não tenham tido ainda os seus quinze minutos de glória.