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sexta-feira, 11 de abril de 2008

Old friends


"As old wood is best to burn, old horse to ride, old books to read, and old wine to drink, so are old friends always most trusty to use"
(D´Arcy W. Thompson)


Poucas coisas
são tão interessantes nesta vida como reencontrar velhos amigos após um longo tempo de separação. Várias situações podem acontecer, desde a profunda decepção à reconfortante certeza de que aquele(a) amigo(a) não o era por acaso. No primeiro caso, nada a lamentar. O próprio tempo que passou se encarrega de manter o afastamento, e tudo fica esquecido. No segundo, é muito bom saber que não nos enganámos àcerca de alguém.
O primeiro embate - mais divertido do que constrangedor - em que comparamos mentalmente a nova imagem com a recordação que tínhamos da pessoa, congelada no tempo, leva-nos quase sempre a concluir que a quantidade de cabelo perdido é inversamente proporcional à dos quilos e rugas ganhos, e que tudo isso é infinitamente menos importante do que alguma vez julgámos possível.
Depois vem o melhor: um invariável rol de boas lembranças, desfiadas da meada da memória (o tempo encarrega-se quase sempre, generosamente, de apagar as más) que nos fazem rir e sustentar uma conversa que poderia durar horas, se tivéssemos tempo para isso num simples almoço. As histórias partilhadas, as situações dramáticas ou cómicas, os êxitos alcançados, o destino de outros amigos (um bocadinho de má língua dá sempre alguma graça a estes reencontros), a orgulhosa exibição de fotografias da família que entretanto se criou, tudo isto com uma naturalidade e à vontade espantosos, como se tivessemos estado juntos na véspera.
Aconteceu-me ontem, com uma amigo de sempre que deixei pelo caminho há quase trinta anos. Era um estudante idealista, hoje é um homem maduro... ainda idealista. Que bom constatar que nem toda a gente fica amarga com as desilusões da vida! Que bom saber que ainda há gente de carácter, que não inverteu as prioridades nem cedeu ao cinismo! Foram duas horas bem passadas, e no fim a promessa de não mais deixarmos passar tanto tempo sem nos vermos. Seremos capazes de cumpri-la? Não sei, a vida é muitas vezes caprichosa. Mas espero que sim. De qualquer maneira, o reencontro valeu a pena.
(Nota: Um beijinho ao M., que passa por aqui de vez em quando. Gostei de rever-te, meu amigo).

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Amigos de talento - II


Sempre inventei histórias para os meus filhos, quando eram pequenos. Deixava correr a imaginação e as personagens iam mudando, ao sabor das perguntas que eles me faziam e dos seus desejos. Muitas vezes eram eles mesmos quem sugeria aventuras e peripécias, consoante o interesse do momento ou alguma coisa que tinham visto ou ouvido. Com uma infância vivida no campo, o imaginário infantil dilata-se substancialmente e ganha cores, cheiros e formas impensáveis para uma criança da cidade. Talvez por isso eles respondessem tão bem ao estímulo da participação na composição da história, acrescentando sempre pormenores mais ricos e dando vida a personagens engraçadíssimas. Frequentemente, eram eles que construiam toda a trama, sem se aperceberem disso.
Tenho as melhores recordações dessa época de partilha de sonhos e de loucuras imaginativas, em que me sentia muito próxima daquele universo mágico e me deixava conduzir, sem resistência, por entre seres fantásticos e mundos delirantes. Era com estes pensamentos que os meus filhos adormeciam, e muitas vezes também eu. Além das histórias, cantava-lhes canções de embalar com letras inventadas por mim, muitas vezes na hora, sobre músicas conhecidas. A única que sobreviveu ao tempo e às sucessivas mudanças de casa, escrita num papel amarrotado, foi uma letra que fiz para o meu filho mais velho. Lembro-me muito bem dessa noite de Verão em que a cantei pela primeira vez, de uma lua cheia e magnífica que entrava pelo quarto e abria as portas a todos os sonhos. Aos meus e aos dele...
Curiosamente, encontrei esse papelinho há uns anos. Sem fazer a menor ideia de qual era a música em que a encaixei nessa época (mais de vinte anos antes), gostei ainda do que tinha escrito e apeteceu-me que alguém a musicasse. Falei nisso à minha amiga Rita Vasconcellos, sabendo que ela se entusiasmaria com o projecto. A Rita é arquitecta de profissão, mas é também uma inspirada compositora, para além de outros múltiplos talentos. É, sobretudo, um espírito curioso e sensível, muito próximo ainda da inocência das crianças, como acho que todos gostaríamos de ser. Como eu calculava, achou graça ao desafio. Pedi-lhe que fizesse uma coisa simples, já que era uma "Cantiguinha de embalar", título que dei, logo ali, à canção que surgiria da nossa parceria. Sentou-se ao piano e começou a alinhavar uma melodia suave e delicada, como aquelas das caixinhas de música. Era exactamente isso que eu tinha imaginado para aquela letra. Deixei-a, nessa noite, enredada na sua criação, sabendo de antemão que iria gostar do resultado. Poucos dias depois, ligou-me. "Está pronta, vem ouvir." Lá fui, comovida e curiosa. E amei desde logo o casamento entre as minhas palavras simples e a música da Rita, que tão bem as tinha apreendido.
Por sugestão de amigos, concorremos com esta canção ao Festival da Canção da RTP (há 3 anos). Para isso, demos-lhe o título de Branca Lua e gravou-se uma maqueta em estúdio, com a própria Rita ao piano e a bela voz da Mafalda Sachetti "emprestada" para o efeito. Não ganhou, claro, nem nós esperávamos que isso acontecesse. É uma música/letra que está muito longe do perfil das canções que habitualmente ganham festivais. Mas todo este processo nos deu um enorme gozo e nos aproximou como amigas. Depois disso, decidimos fazer outras parcerias musicais. Estão em fase de acabamento várias canções, e algumas delas farão parte de um interessante projecto musical em que a Rita está agora a trabalhar (não posso adiantar mais sobre o assunto porque ainda está no segredo dos deuses, mas acredito que vai ser um êxito).
Aqui fica a Branca Lua, em maqueta, porque ainda não encontrou uma voz que lhe desse vida definitivamente. Gostaríamos muito que isso acontecesse, um dia.
BRANCA LUA

Branca lua traz um sonho
risonho
ao meu filho adormecido
Deixa-o partir num veleiro
ligeiro
pelo azul desconhecido
Deixa-o tocar as estrelas
prendê-las
entre os dedos pequeninos
como se fossem brinquedos
segredos
que só sabem os meninos

Dá-lhe asas ao pensamento
fermento
duma vida por escrever
que enquanto tudo se espera
quimera
tudo pode acontecer
Ó Lua, quando ele partir
a sorrir
no seu corcel de magia
pede ao sol que se detenha
e não venha
trazer cedo a luz do dia


(Como tenho estado com problemas no Imeem, aqui fica o link se não conseguirem ouvir: http://anavidal.imeem.com/music/MKNuQSuG/mafalda_sachetti_branca_lua/)

segunda-feira, 31 de março de 2008

Baptizados


Como prometido - tenho que explicar aos leitores incautos que esta é uma private joke entre mim e os amigos Fugidia e Réprobo - aqui está uma fotografia do meu baptizado. Foi em Março e em Sintra (na Igreja de Sta Maria), o que, além do facto de eu ter só um mês de vida, justifica a toilette enchouriçada...
Estou ao colo da minha madrinha, que respondeu ao convite dos meus pais com um longo arrazoado em verso, que acabava assim:
E se não vier chuvinha
(no que temos muita esperança)
irá bonita a madrinha
com um chapéu que veio de França!
Não choveu, pelos vistos.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Amigos de talento - I

A inaugurar esta galeria de "Amigos de talento" que hoje começa aqui, um amigo recente mas muito especial: Manecas Costa, um músico com talento para dar e vender. É natural da Guiné-Bissau mas vive em Portugal há nove ou dez anos. Diz-se integrado e feliz por cá, coisa que sabe sempre bem ouvir a alguém que teve que ultrapassar barreiras raciais e adaptar-se a um novo mundo. Mas a música, que lhe está no sangue desde criança, abriu-lhe portas insuspeitadas. Depois de alguns anos de relativo anonimato e de uma primeira gravação, teve um convite da World Music para gravar o seu segundo cd em Londres, com a prestigiada chancela da BBC. Por lá ficou uns meses, actuando em salas históricas e fazendo um sucesso tremendo. Até em casa de Peter Gabriel tocou. Mas nem o facto de ter estado nos tops ingleses, deixando para trás nomes famosos, fez com que perdesse a simplicidade e o sorriso tímido e franco. Maior que a qualidade da sua música, só a sua qualidade humana.
Conheci-o num concerto em prol da Lusofonia (eu fazia parte da organização e era letrista de um dos outros artistas convidados), há cerca de um ano, com músicos de vários países tocando e cantando repertórios trocados entre si. Uma festa bonita, daqueles momentos especiais que só às vezes acontecem em palco. A palavra certa para descrever a sensação que me provocou a actuação do Manecas, nessa noite mágica, é esta: electrizante. Destacava-se entre os consagrados, voz e guitarra sobrepondo-se naturalmente, sem "atropelar" ninguém. Era, simplesmente, o melhor dos melhores. No fim do espectáculo conversámos imenso e alinhavámos, logo ali, parcerias futuras. Mas, como acontece tantas vezes, perdemo-nos de vista logo a seguir e tudo ficou em suspenso. Voltámos a encontrar-nos agora, porque é ele o inspirado guitarrista da canção "O inventor de abraços", uma das que tem letra minha no novo cd do Luís Represas. Tem estado na Galiza a fazer teatro mas vem cá sempre que pode, para estar com a família. Gostei de revê-lo e de saber dos êxitos que tem tido. Porque ele os merece, sem sombra de dúvida.
Aqui fica a canção que lhe ouvi nessa noite da Lusofonia, "Pertu di Bo", e também "O inventor de abraços", uma parceria que afinal fizemos sem saber. Mas outras virão.




quarta-feira, 12 de março de 2008

É Natal, é Natal, lá lá lá...


Natal é quando um homem quiser, não é? Pois hoje foi Natal, para mim: recebi presentes de duas amigas muito queridas, completamente inesperados (e talvez imerecidos). Ainda estou comovida com eles, e tenho muito para deleitar-me com esta sorte que hoje me tocou à porta. Querem ver? Roam-se de inveja...
Da Mãe Natal Sofia - Uma longa carta muito bem escrita, numa caligrafia legível mas cheia de personalidade, em papel escolhido com capricho, rico de textura e bom gosto. Aqueceu-me a alma e trouxe-me de volta o prazer longínquo de trocar cartas verdadeiras, daquelas que chegam pelo correio, à moda antiga. Não revelo o conteúdo, porque é privado, mas digo-vos só que ainda estou com um sorriso depois de lê-la.
De Mamãe Noel Meggy - Uma caixa cheia de surpresas, desvendadas com o vagar e a volúpia que merece tudo o que é escolhido para nós, com amor e exclusividade. Cada uma delas, uma delícia. Ora vejam: Um livro de crónicas de Fabia Vitiello (Oba! Obrigada também a você, Fal, pela dedicatória cheia de sensibilidade. "Crônicas de Quase Amor" será a minha próxima leitura); um quadro feito com folhas e frutos vermelhos, artesanal, que já está pendurado na minha cozinha e ficou liiiiiindo!; um colar feito de sementes coloridas, outra peça do rico artesanato do Pará, de um gosto incrível (um must para o Verão!); um íman para o meu frigorífico, lembrando tesouros gastronómicos e cheirinhos do Brasil; e, last but not least, um cd da minha amada Maria Bethânia, ao vivo - Diamante Verdadeiro (alguém duvida?). Tudo isto para mim, Meg? Amiga, como vou eu retribuir tanto carinho atravessando o Atlântico?
Eu não digo que tenho os melhores amigos do mundo?

terça-feira, 11 de março de 2008

Se eu soubesse o que seria, se...

O Paulo Cunha Porto, Réprobo azul e branco que muito prezo, desafia-me a projectar-me em mil coisas, desde os números (que nunca foram o meu forte) até aos climas, imagine-se! Ainda pensei disfarçar, mas a deselegância com os amigos não é o meu pior defeito. Valha-nos isso. Com este e outros argumentos de peso, o meu narcisismo aproveitou logo a perspectiva de um jogo de espelhos para pôr-se em bicos de pés. Acabei por perceber, lendo as respostas de outros, que a pergunta não é tanto "o que seria" mas "o que gostaria de ser". De outro modo, cairia por terra a tese da auto-crítica para dar lugar a um descabelado auto-elogio. Assim é só sonho, ninguém leva a mal. E aqui estou a responder, com a certeza de ficar muito aquém do que seria, se... tivesse juízo!
Se eu fosse um dia da semana, seria... Sexta-feira, mas só se tivesse um Robinson Crusoe para brincar. Tudo menos um Domingo, a não ser que pudesse ser um Plácido.
Se eu fosse um número, seria... o 7. Eu e mais alguns biliões de pessoas, mas é preciso ser-se humilde.
Se eu fosse uma flor, seria... uma Frésia amarela, a minha flor preferida. Se já não as houvesse na florista, então uma hortênsia azul.
Se eu fosse uma direcção, seria... o Sul, definitivamente e cada vez mais. De poucas coisas tenho tanta certeza, e não me perguntem porquê.
Se eu fosse um móvel, seria... uma Chaise-longue bem confortável, estofada a veludo castanho-chocolate.
Se eu fosse um quadro, seria... de Magritte ou de Boticcelli.
Se eu fosse um líquido, seria... um Vinho velho, tinto.
Se eu fosse um pecado, seria… o catálogo completo, com excepção da Inveja e da Avareza (e excluindo também, irritada - eu não excluí a Ira - estes novos pecados modernos com que o Vaticano se lembrou de nos presentear agora, como se estivéssemos mal servidos de culpas e a vida nos fosse fácil...). Não é o Papa que calça Prada?
Se eu fosse uma pedra, seria… uma Safira, a minha pedra astral.
Se eu fosse um metal, seria… Ouro, porque é eterno, macio, e tem um mistério incomparável.
Se eu fosse uma árvore, seria… um Plátano em Outubro, para ter em mim todos os tons que há na paleta do Outono.
Se eu fosse uma fruta, seria… uma Maçã encarnada. Porque sim.
Se eu fosse um clima, seria… um clima desses que pinta às vezes e deixa a gente à toa, ora!
Se eu fosse um instrumento musical, seria… uma Guitarra, dedilhada por um virtuoso.
Se eu fosse um elemento seria… o Ar (o meu signo é de Ar), livre e adaptável a todas as formas. Uma brisa às vezes, outras uma nortada. Um ar da minha graça...
Se eu fosse uma cor, seria… Azul. Em todos os tons e matizes, mas sobretudo o azul-cobalto (a cor do mar na Gruta Azul, em Capri) e o azul-turquesa (a cor do mar na Baía de Carthago). Nem sempre se pode ser original, e recuso-me a escolher o "branco gelo" só para fazer género.
Se eu fosse um animal, seria… um Tigre de Bengala, o mais belo animal que já vi.
Se eu fosse um som, seria… o do Mar, que canta só para mim, às vezes.
Se eu fosse uma canção seria… American Tune, de Bach / Paul Simon.
Se eu fosse um perfume seria… o Eau d'Issey, de homem. Ou o Paloma Picasso, para a noite.
Se eu fosse uma comida, seria… Chocolate. (nem me atrevo a pensar em enumerar outras, porque a lista seria infindável)
Se eu fosse um cheiro, seria… o do Pão acabado de cozer.
Se eu fosse uma palavra, seria... uma Palavra escrita ou cantada.
Se eu fosse um verbo, seria… Amar. Não conheço outro mais completo.
Se eu fosse um objecto seria… uma Mala de viagem, sempre pronta.
Se eu fosse uma peça de roupa seria… uma Camisola de caxemira, directamente sobre a pele.
Se eu fosse uma parte do corpo, seria… os Olhos. Sem eles, não consigo imaginar a vida.
Se eu fosse uma expressão, seria… na Lua. É onde estou, a maior parte do tempo.
Se eu fosse um desenho animado, seria… Tintin, o meu preferido, aventureiro e curioso.
Se eu fosse um filme, seria… As Horas, uma lição para toda a vida.
Se eu fosse uma forma, seria… uma Esfera, que não se deixa apanhar nas esquinas...
Se eu fosse uma estação do ano, seria… o Outono, pela luz e pelas cores. E pelas sonatas que inspira.
Se eu fosse uma frase, seria… esta, de Cecília Meirelles: "Aprendi com a Primavera a deixar-me cortar e voltar sempre inteira."

Passo o desafio a quem quiser pegar-lhe, que isto dá muito trabalho...

quinta-feira, 6 de março de 2008

A marquesa saiu às 5 horas


A minha amiga Meg, incansável e excelente blogueira, propõe um desafio irresistível a todos os comentadores do seu badaladíssimo Sub Rosa (com novo visual, a propósito): o de glosar, à semelhança do que fez o escritor Paulo Mendes Campos (brilhantemente, como poderão ler no post da Meg) esta frase: A marquesa saiu às cinco horas. A frase surgiu de uma ideia do poeta Paul Valéry:
“Valéry, com seu horror à vulgaridade literária, dizia-se incapaz de escrever um romance por não possuir a coragem de redigir uma frase como esta: A marquesa saiu às cinco horas."
Pois bem, Paulo Mendes Campos inventou novas versões para descrever um episódio tão banal como esta saída da marquesa, com hora marcada. Algumas delas são hilariantes. O que vos peço - a vós, ilustres e bem humorados comentadores desta Porta do Vento - é que alinhem na brincadeira e sugiram as vossas próprias versões, contribuindo para o disparate colectivo. Podem fazê-lo na caixa de comentários da Meg, que ela depois fará um apanhado dos melhores (ou de todos, não sei) e com eles fará um novo post.
Eu já contribuí. Vá lá, juntem-se ao desafio. É divertido e ginastica os neurónios...

(Nota: Não resisti a ilustrar este post com um retrato da nossa Marquesa de Alorna)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Meia dúzia de nadas

Lá me apanharam em mais uma corrente. Mas, vinda da Leonor, não posso recusar. Assim, deixo aqui as tais "6 insignificâncias" sobre a minha pessoa, que não interessam a ninguém mas que tiveram o mérito de me fazer olhar para dentro. São estas:
    1. Demoro muito a "sair" de um filme de que gostei. Quando se acendem as luzes da sala de cinema e olho à minha volta, tudo me parece estranho: as pessoas, as conversas, o ambiente. Às vezes, um dia inteiro não chega para voltar à realidade. Acontece-me o mesmo com alguns livros.
    2. Adoro flores amarelas: rosas, frésias, narcisos, túlipas.
    3. O mar faz-me uma falta física: se estou muito tempo afastada, começo a entristecer perigosamente.
    4. Perco-me por tapetes orientais. E por chocolates.
    5. Nada tem a capacidade de me comover como a música. E pode ser qualquer uma a ter este efeito, desde a erudita ao fado.
    6. Sou a pessoa mais distraída do mundo, mas sou boa fisionomista. Raramente esqueço uma cara e tenho a mania de encontrar semelhanças entre as pessoas.
    7. Em Itália, sinto-me em casa. Mas é a Índia o meu grande desafio.

E pronto. Eu sei que são 7 e não 6, mas eu gosto mais do número 7 (outra mania minha, também). Passo o desafio ao Pedro Viegas, à Rosarinho, ao Paulo, à Musqueteira, à Meg, à Sofia e ao Pedro SB, que é da casa e por isso responderá aqui mesmo. Se lhe apetecer, claro, como aliás todos os outros.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Baleal, um amor antigo

Todos nós temos uma praia. A "nossa praia". Uma espécie de mundo encantado, perdido no tempo, onde estão guardadas, intocáveis, as nossas mais doces lembranças da infância e da adolescência. A minha é, sem dúvida, o Baleal. Estive afastada dela, fisicamente, durante anos. Mas o espaço que este lugar especial teve sempre no meu coração nunca foi ocupado por nenhum outro. Por qualquer razão que desconheço - há forças subterrâneas que não têm explicação simples, e são mais importantes do que pensamos - o Baleal voltou a tornar-se um apelo fortíssimo na minha vida. Sinto-lhe, mesmo de longe, o eterno cheiro a maresia, o vento cortante das madrugadas, a extrema brancura da areia finíssima. Cinco sentidos alerta, à espreita das memórias. Porque todas as velhas memórias se corporizam neste lugar mágico, onde o tempo teima em não passar.

Ando há muito tempo para escrever sobre o Baleal. Mas a minha irmã Madalena descreveu-o assim, e eu nunca o faria melhor. Convido-vos a ler esta declaração de amor à minha praia, à nossa praia de infância:

A Ilha do Baleal é um daqueles sítios alcançados por bafo divino em dia de suprema inspiração, dona de uma beleza natural que, além de absolutamente estonteante, é originalíssima na costa portuguesa (digo eu, que não a conheço toda), e isto só do ponto de vista geográfico e não do resto (ao dito resto iremos, a seu tempo). A Ilha, que não o é, sê-lo-ia quase se não estivesse ligada ao “continente” por uma língua de areia com duas praias – e aqui começa a originalidade, mas nem por sombras se esgota – que se enfrentam, mais que se admiram, mesmo em frente uma da outra.

Nós, os nativos, insistimos em chamar-lhe Ilha, talvez porque há muitos anos quem a frequentava lembra-se bem de chegar ao Redondo e ter que esperar que a maré baixasse para poder atravessar, pois a maré cheia juntava as águas até quase se perder o pé, ou pelo menos até tornar perigosa a travessia, por causa das correntes fortíssimas formadas pela junção das duas águas. O que, aliás, acontece ciclicamente, e é só mais uma das suas originalidades: a Ilha comporta-se como se tivesse vontade própria, transforma-se quando lhe dá na gana, renova a sua imagem, redefine os seus caminhos, o tamanho das suas praias, a quantidade da sua areia, a altura das suas rochas até quase à véspera familiares,provavelmente para nos confundir, nos encantar ou simplesmente nos fazer reapaixonar pelas suas formas renovadas.


Nega sistematicamente – ou não fosse ela um espírito livre – todas as transformações feitas por mão humana, imperfeitas por definição e desígnio divino, como o famigerado pontão para passagem de carros, espécie de cicatriz de uma operação mal conseguida, quase todos os anos reparado porque o mar o enche de areia ou porque lhe tira tanta que lhe faz perigar os alicerces, como se a própria Ilha o rejeitasse como corpo estranho, coisa de tal maneira óbvia que nós, míseros mortais e pouco sabedores dos mistérios da natureza, não alcançamos à primeira vista. Ou talvez porque, no fundo, desejamos que ela realmente venha ser uma ilha perdida nas brumas, inacessível aos milhares de veraneantes atraídos como mariposas pelo seu brilho.


De um lado, a ilha oferece-se ao continente, generosa na fartura das suas praias gémeas – falsas – uma de águas calmas mas perigosas, a outra de águas revoltas e correntes fortes mas previsíveis. Como a mente humana, aliás: toda a Ilha é uma analogia. E ainda nos oferece mais duas praias, uma escondida do primeiro olhar, por ser reduto antigo de barcos de pesca e por definição segura, protectora, aconchegante: a dos Barcos; e outra tão pequena que torna admirável o facto de ter sido baptizada: a das Cebolas, ainda que o seu nome não seja nem remotamente poético.


Do outro lado, aberta ao azul-cobalto, a Ilha mostra a sua face rebelde, gigantesca e sempre agreste, menos moldada às vontades humanas e imune a invasões. É o lado oceânico, com vista para as Berlengas, sua congénere longínqua e ao mesmo tempo ali tão perto, e para os Farilhões, ilhotas desertas e heliporto exclusivo de pássaros marinhos, a eterna inveja da nossa Ilha de alma eternamente selvagem. Ela aponta-lhes a sua proa cortante e abrupta, como se quisesse levantar âncora, imitando penínsulas saramaguianas na desesperada tentativa de se lhes juntar. A prová-lo, a Ilha das Pombas, esta com I maiúsculo por direito próprio, rochedo virgem e rebelde que fugiu das saias da mãe, conseguiu desertar da cobiça humana e buscar uma vizinhança composta exclusivamente por seres marinhos, ou quando muito alados, e fez-se ao mar há já uns bons milhares de anos.


Ainda que de rocha pura, a Ilha tem essência marinha, feminina. É mais feita de mar que de terra – a prová-lo o facto de não haver uma única árvore em todo o seu território, nem mesmo um pessegueiro, ainda que de outros tempos, só tojos raquíticos que sobrevivem à custa de pura teimosia – quase como se criar raízes não calcárias fosse motivo de vergonha para uma ilha que se preze...



É orgulhosa, a nossa Ilha. Não nos quer lá – ou não nos brindasse com tempestades quase de granizo em pleno estio, e só aos parcos mas persistentes visitantes invernais concede raras manhãs ensolaradas, gloriosas, ainda que gélidas. Parece até que considera esta adoração de que é objecto um contratempo, uma contrariedade temporária de que se verá livre rapidamente – para ela o tempo é efémero e o seu não se mede pela mesma medida que o nosso. Uma vida humana é um décimo de segundo. A memória da geração anterior somada a uma vida de agora não é mais que um suspiro.Talvez nos deixe construir casas porque as pintamos de branco, quem sabe as confunde com velas desfraldadas ao vento e conta com elas para sair mar afora, rumo ao pôr-do-sol...



(Fotografias: Mário Cordeiro)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Palavras minhas

Pede-me a Leonor Barros que nomeie as 12 palavras de que mais gosto. Difícil tarefa, escolher só 12. Adoro palavras e tenho a veleidade de achar que sou correspondida. Gosto de dizê-las, de escrevê-las, de repeti-las mentalmente, soltas ou em combinações caprichosas que elas próprias tratam de compôr. Dói-me quando as maltratam, como se fossem gente, e alegro-me quando as glorificam. As palavras são um brinquedo eterno e universal, além de absolutamente democrático: todos temos acesso a elas, ao seu mistério, à sua beleza, ao seu peso específico. Com palavras se pode dar vida e com palavras se pode matar. Mesmo os silêncios são feitos de palavras imaginadas, sonhadas, desejadas ou temidas. As palavras dançam à nossa volta durante uma vida inteira, a convidar-nos para o seu baile alucinante. Dancemos com elas.
Vamos às minhas preferidas, então. Não me detive no significado mas talvez na fonética, ou apenas no misterioso eco interior que cada uma delas provoca em mim, sem razão aparente. Aqui estão:
Maresia
Areia
Madrugada
Baía
Luz
Delícia
Cambraia

Ventania
Pele

Silêncio
Voragem
Ilha

Parabéns pela ideia, Leonor. O exercício é estimulante, ao contrário de algumas correntes que andam por aí na blogosfera. E passo o desafio a 12 amigos blogueiros (um por cada palavra preferida): Teresa, Mariav, Capitão-Mor, JuliaML, Pedro Viegas, Jayme Serva, African Queen, RAA, Lord Broken-Pottery, Adelaide Amorim, Sofia e Feitixeira, porque todos eles são gente da palavra. E de palavra.

domingo, 23 de dezembro de 2007

UM BOM NATAL

Amigos de sempre, amigos recentes, amigos de um dia que ainda há-de vir:

Para todos os que passam por esta Porta, um Feliz Natal, com mais Alegria e Paz do que embrulhos e laçarotes.
Nota: Ninguém me levará a mal que deseje, especialmente, um óptimo Natal à Ana LC, que tive a alegria inesperada de ouvir ao telefone, ainda há pouco. A vida não nos derrota, Ana. Muitos e felizes Natais!

domingo, 16 de dezembro de 2007

Obrigada

Obrigada a todos os meus amigos que tiveram a paciência e a coragem de ter ido ontem à Azambuja para o lançamento do meu livro, nesta época em que todo o tempo está ocupado.
E obrigada também a todos os que não puderam estar presentes, e, literalmente, me entupiram o telefone e o computador com mensagens e mails tão queridos que me aqueceram a alma.
A todos agradeço, comovida, porque sei que os amigos são o mais precioso dos bens. E os meus são os melhores do mundo!

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Convite

Entretanto, duas boas notícias:

1. Gostava muito de contar com todos no lançamento do meu livro Gente do Sul, que será na Azambuja (eu sei, eu sei, não é exactamente o sítio mais prático. Mas aviso que há comes e bebes, talvez convença assim os mais relutantes...), no próximo dia 15 de Dezembro (sábado) às 18h, no Auditório Municipal de Azambuja. O livro será apresentado pelo Dr. Joaquim Ramos, Presidente da Câmara de Azambuja. Apareçam por lá!


2. Soube agora mesmo que outro livro meu, A Poesia é para Comer, acaba de ganhar um prémio internacional: o Gourmand World Cookbook Award 2007, para o melhor livro português na categoria de Best Food Literature Book. Com este prémio, o livro fica automaticamente candidato ao prémio máximo, o Gourmand Best in the World, cujo vencedor será anunciado em Maio de 2008. Para quem não conhece, os Gourmand World CookBook Awards são uma espécie de Óscares para os livros de Cozinha, atribuídos por um júri internacional e muito concorridos. Só por curiosidade, o criador e presidente destes Prémios (belga ou suiço, não sei bem) chama-se, bem a propósito, Mr. Edouard Cointreau.

Está quase


A melhor coisa de se estar afastado durante algum tempo é constatarmos que fazemos falta e que gostam de nós. Seja para um grupo restrito de pessoas, seja para um imenso público anónimo, ser-se querido é sempre muito bom.
A longa lista de mails, por ler, na minha caixa postal, somada às mensagens que encontro aqui na caixa de comentários do blog, dizem-me que há quem tenha sentido a minha falta. Quem tenha tido saudades. E só por isso, meus amigos, já valeu a pena ter estado estes dias todos embrulhada em caixotes e com a casa virada do avesso.
Obrigada a todos, pelo carinho. Prometo voltar em breve (não, ainda não tenho net regularmente - não conhecem a TV Cabo, por acaso??), e, para já, vou passando por aqui para pôr a conversa em dia.
Nota 1: Que bom que é ter interlocutores inteligentes: deixei aqui um subtil desafio com a palavra "rede" (escrita e sugerida numa imagem vaga), o que suscitou logo vários trocadilhos e interpretações, tal como esperava.
Nota 2: As arrumações estão quase feitas. E não, não me mudei para o Palácio da Pena. Mas tenho pena.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Um presente


Há dias, tive um presente muito especial: uma agenda para 2008.
Mas não é uma agenda qualquer. Nada disso. É daquelas que guardamos religiosamente, e que continuamos a abrir muito tempo depois de aquelas datas baterem certas com os dias da semana. Muito tempo depois de termos enchido aquelas páginas de anotações, lembretes, pensamentos, contas, ideias.
Não é uma agenda qualquer. É o Culinário 2008*, ainda virgem dos meus escritos e já muito bem recheado de petiscos a pedirem para serem feitos e apreciados: uma receita por cada dia do ano, e todas apetitosas.
Obrigada, Sofia.

*(da Assírio & Alvim)

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Alice no país dos hai-kais



Alice Ruiz: querida amiga, poeta, letrista e mestra de hai-kai, essa subtilíssima arte da palavra fotográfica. Chamo-lhe assim porque um hai-kai é o registo de um momento, imobilizado e fixado para sempre, como numa fotografia (não sei se a definição será muito ortodoxa, mas é assim que eu vejo esta forma de poesia).
O disco Paralelas é o belo resultado de uma parceria bem sucedida: Alice e Alzira Espíndola, letra e música, respectivamente. Além das vozes de ambas (falada a primeira, cantada a segunda), também as de Zelia Duncan e Arnaldo Antunes, a fazer deste trabalho um registo memorável.
Aqui ficam alguns exemplos do talento de Alice (escolhi-os do livro Desorientais, uma recolha exaustiva dos hai-kais da poeta) :







lembra aquele beijo
corpo alma e mente?
pois eu esqueci completamente
*
dançamos em pensamento
a dança dos anos
que nos devemos
*
roubaram a casa
as moscas ficaram
às moscas
*
o menino me ensina
como um velho sábio
o quanto sou menina
*
à beira do insuportável
essa qualidade rara
ser insubordinável
(Alice Ruiz, in Desorientais)


(Alzira Espíndola e Zelia Duncan, cantando uma letra de Alice - É só começar - do Paralelas)

É só começar
ninguém precisa
ter talento
p'ra transformar
caso em descaso
já o contrário
é que é o caso
se você não tem, lamento
é preciso ser forte
é preciso ser fraco
é preciso ganhar
e perder o juízo
sai dessa pose
pára de pensar no prejuízo
e segue em frente
tem hora p'ra chegar
tem hora p'ra se afastar
não sabe como?
é só começar

domingo, 4 de novembro de 2007

Sedução na página 161


Por intermédio da Leonor Barros, do Geração Rasca, passou pela Porta do Vento a tal corrente blogosférica da "pág. 161". Antes de mais, agradeço à Leonor o simpático convite, e adiro à corrente com muito gosto. São estas as regras:
1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica acaso e não escolha.
2. Abra o livro na página 161.
3. Na referida página procure a 5.ª frase completa.
4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada.
5. Passe o desafio a cinco bloggers (por minha conta e risco, aumentei para seis).
No livro que estou agora a ler - Como tornar-se doente mental, de J.L. Pio Abreu - a página 161 é uma das 8 da extensa bibliografia, por isso presumo que não conta. Assim, querendo manter as coisas com algum rigor e isenção, resolvi fazer o seguinte: dirigir-me à estante, apalpando as lombadas sem olhá-las, avaliando-lhes a espessura para excluir automaticamente os livros que não tivessem o número mínimo de páginas. O livro em que peguei, por este método, é uma espécie de "3 em 1": Poemas - As Elegias de Duíno - Sonetos a Orfeu, de Rainer Maria Rilke. Curiosamente, a página 161 é... uma fotografia! Assim, olhei para a página par que lhe correspondia, e lá encontrei a 5a frase completa, que é esta:
"mais sedutores que Frine se seduzem a si próprios"
E pronto, passo o testemunho aos seguintes bloggers:
  1. Juro que tenho mais que fazer, da Madalena
  2. O Eldorado, do JP
  3. Dito Assim, do Jayme Serva
  4. Codornizes, do Pedro Cordeiro
  5. Zoo, do JG
  6. Abencerragem, do Ricardo António Alves

Madrid


O fim de semana alargado (de 4 dias) em Madrid, que tínhamos planeado, acabou afinal por resumir-se a dois dias bem medidos, porque uma das pessoas que ia connosco teve que voltar a Lisboa mais cedo por razões profissionais urgentes. Foi pena. Mas esses dois dias, apesar das alterações, foram muito bem aproveitados e valeram cada segundo. Madrid vale bem, sempre, cada segundo de estadia.

Na última vez que eu tinha estado em Madrid, tinham passado cerca de 15 dias do pavoroso atentado da Estação de Atocha, e ainda tenho na memória a esmagadora tristeza de uma cidade que sempre me habituei a conhecer fervilhante de vida: nesses dias havia velas acesas e ramos de flores em todas as esquinas, espalhados pelo chão, e uma estranha apatia estupefacta tinha tomado conta das pessoas. À excepção de alguns grupos de oração, não se via praticamente ninguém na rua. Vim de lá impressionada, sem vontade de voltar tão depressa àquela Madrid fantasmagórica, tão diferente do habitual. E desta vez, confesso, ia numa certa expectativa pelo ambiente em que iria encontrar a cidade, sabendo que o tema do momento, como não podia deixar de ser, era a recém-pronunciada sentença do 11-M (designação que os espanhóis adoptaram para a "sua tragédia" de terrorismo islâmico, à semelhança dos novaiorquinos, com a abreviatura 9-11). Felizmente, o meu medo dissipou-se logo à chegada. Madrid renasceu das cinzas, com aquela força anímica de que os espanhóis - calejados pela memória de uma sangrenta guerra civil e pelos imprevisíveis e igualmente sangrentos atentados da ETA - se habituaram a socorrer-se, não permitindo que o Mal os impeça de festejar a Vida. Grande povo!

É claro que, apesar de Madrid estar cheia de forasteiros nestes dias - muitos madrilenos aproveitaram as mini-férias para sair da cidade - as conversas de café e as notícias de jornal dão conta das várias indignações populares, que resultam da clareza inequívoca da sentença jurídica: a confirmação da manipulação mediática do acontecimento por parte do PP, à época no poder (desastrosa jogada política que custou ao partido as eleições que se seguiram, e sobre a qual terá que voltar a prestar contas agora); a absolvição de vários réus, nomeadamente o odiado Rabei Osman "El Egipcio", e também Hassan "El Haski" e Youssef Belhadj, por manifesta falta de provas.
Compreensivelmente, o povo quer ver feita justiça: os 191 mortos e os mais de 1.800 feridos dos atentados de Atocha, não podem nem devem ser esquecidos. Mas o tribunal provou saber julgar com isenção e distanciamento emocional: fixou em 900.000 € a indemnização que receberá cada um dos familiares das vítimas mortais, e condenou a 42.922 anos de prisão Jamal Zougam e Otman "El Ghanoui", ambos como autores materiais dos atentados. Além destes, vários outros réus foram condenados por crimes de associação criminosa e armada, cumplicidade, etc. Dez desses islamitas condenados já estão a fazer uma greve de fome, como protesto pela sentença. Nunca se pode contentar toda a gente, mas creio que a impressão geral que fica deste dificílimo julgamento, é a sua isenção.
Entretanto, Ayman Al-Zawahiri, número dois da hierarquia da Al Qaeda, já apelou à mobilização dos seus seguidores para novos ataques aos interesses dos países ocidentais - EUA, França e Espanha - nos países do Magreb: Argélia, Tunísia, Líbia e Marrocos, por considerar estes países "escravos do Ocidente". A guerra santa, infelizmente, não tem um fim à vista.

Bom, chega de política e de tristezas: Madrid tem sempre uma oferta de Arte invejável, e foi sobretudo por isso que lá fomos desta vez. Com um objectivo específico, antes de qualquer outro: ver a exposição de pintura de Paula Rego no Centro de Artes Reina Sofia. E, neste capítulo, tudo o que eu possa aqui dizer ficará a anos-luz da realidade. Integrada na V Mostra de Cultura Portuguesa, a que Madrid dedica uma série de iniciativas representativas das várias artes em Portugal - música, pintura, fotografia, azulejaria, etc. - a exposição comemorativa de toda a carreira de Paula Rego é a mais completa que foi feita até hoje e é, positivamente, de cortar a respiração. Ocupa toda uma ala do 1º andar do Rainha Sofia, e abrange desde as primeiras experiências académicas da pintora (já geniais, aliás) até aos´trabalhos executados no passado ano de 2006. Quase todos os quadros-ícones da sua obra lá estão: "a mulher-cão", "a família", "o baile", toda a série das "avestruzes-bailarinas", a série sobre o aborto clandestino, etc. São, na sua maioria, quadros de enormes dimensões, que têm um impacto completamente diferente (como é natural) daquele que exerce sobre nós uma reprodução vinte vezes menor, por muito boa que seja.

No meu caso, confesso, foi a total rendição à pintora: além da prodigiosa mestria técnica (unanimemente reconhecida pelos maiores críticos de arte mundiais), está patente, na obra desta mulher, um profundo e impressionante conhecimento da natureza humana, nas suas facetas mais sórdidas mas também nas mais redentoras. A série de pequenos desenhos denominada genericamente "misericórdia", fez-me saltar lágrimas dos olhos, de tão comovente. São cenas de entre-ajuda humana, nas situações mais difíceis da vida de todos nós: aquele conceito a que os cristãos chamam vulgarmente "caridade" e que tão desvirtuado e mal interpretado tem sido ao longo dos tempos. O que mais impressiona nelas é o próprio tema, raramente abordado em pintura. Mas, se há adjectivo que possa aplicar-se à obra de Paula Rego, é mesmo "incómoda". Não só pela violência de algumas imagens, retratadas sem fantasias nem romantismos de qualquer espécie, mas sobretudo pela coragem de abordar temas que não são considerados "estéticos". Paula Rego pinta a realidade nua e crua, pungente e grandiosa na sua complexidade: as figuras femininas são robustas e quase rudes (gente de trabalho, comum, e não modelos de perfeição), mas tão expressivas quanto um ser humano pode ser. A ténue linha de divisão entre seres racionais e irracionais está bem expressa na utilização de animais em poses e situações humanas, a mostrar-nos como estamos todos tão próximos da bestialidade e, por outro lado, como alguns animais se aproximam ou até ultrapassam as nossas so called "melhores qualidades".

Magnífica experiência, é o que tenho a dizer. E de tal maneira forte que, ao subir para ver Picasso (que está no andar logo por cima em toda a sua pujança, inclusivamente com o impressionante Guernica), ficamos perdidos, sem conseguir fazer a mudança de registo e sem conseguir, sequer, aderir ao mestre (e até a Dali, que lá está representado também e que é um pintor que eu adoro). Não nos é possível desligar logo do impacto poderoso de Paula Rego, e esse facto já diz muito sobre a qualidade da sua obra. Volto a dizer: rendi-me incondicionalmente à pintora, embora mantenha que não aguentaria olhar todos os dias para a maioria dos seus quadros e que, só por essa razão, não os queria ter na minha sala. São espelhos incómodos, que nos deixam sem pele. Mas que demonstram bem o poder da arte, quando é boa.

Enfim, a exposição não só vale a pena como é absolutamente obrigatória, na minha opinião. Se lá puderem ir, não deixem de fazê-lo. Ainda estará por lá até ao fim do ano. E se não puderem mesmo, então não percam a esperança: o Museu Paula Rego será uma realidade a curto prazo, em Cascais.

Um pormenor importante: aconselho vivamente o uso do audio-guia (embora não exista em português!!!), que explica criteriosamente as histórias que estão por detrás dos quadros principais, as mudanças de fase e de motivações, e que inclui até explicações da própria pintora. É completamente diferente ter este apoio, sobretudo nas figurações menos óbvias.

Mas nem só de arte vive o homem: embora não tenha dado tempo para o flamenco - estava programada uma visita ao famoso Café de Chinitas, decorado pelo português Duarte Pinto Coelho - a gastronomia é sempre um must em Madrid: não deixámos de cenar perdiz no antiquíssimo Sobrino de Botín (o restaurante mais antigo do mundo, segundo o Guiness), onde continua a comer-se maravilhosamente e onde os preços, curiosamente, não aumentaram muito. O ambiente é fantástico, os empregados são eternos, a comida insuperável. Está sempre completamente cheio, é uma sorte conseguir uma mesa sem reserva. Tivemos sorte.

O mesmo não se pode dizer das esplanadas da Plaza Mayor, onde almoçámos mal e por um preço astronómico. Os turistas tomaram posse dos velhos restaurantes e inflaccionaram os preços, a um ponto ridículo para a qualidade actual. Salvou-nos o Jose Luis, na Castellana, cujos solomillos e o revuelto de gambas e asparragos verdes, ao jantar, nos fizeram esquecer completamente o desaire do almoço.

Resta-me dizer que o belo sol de Madrid nos permitiu passear e andar por las tiendas (não resisto aos sapatos, em Espanha...), e por isso fizemos quilómetros a pé. Tudo está bem quando acaba bem, e só foi pena que tivesse acabado tão depressa. Mas hei-de voltar, quantas vezes possa, a Madrid. Essa é uma das poucas certezas que tenho.

(Paco de Lucia - Entre dos Aguas)

Nota 1: Aqui fica o fabuloso som de Paco de Lucia, que um dia ouvi ao vivo (precisamente no Café de Chinitas), há muitos anos.

Nota 2: Duas notícias curiosas, ouvidas na TVE: a primeira é a de que o "Toro de Osborne" - autêntico símbolo nacional - acaba de fazer 50 anos. Uma centena de exemplares está espalhada por todo o território, lembrando-nos de que estamos em Espanha; a segunda diz respeito a um crime passional, ocorrido recentemente e relatado da seguinte maneira (impensável ainda há poucos anos) - "1o años de carcere para el chico que mató a su novio".
Nota 3: Infelizmente, e embora nos tenhamos falado por telefone mais do que uma vez, não nos foi possível tomar "una copa" com os bloguistas amigos do Codornizes e d'O Meu Cais. Eles estiveram por lá mais dois dias, por isso aconselho a lê-los: são viajantes curiosos e muito mais novos (aguentam bem mais do que eu, que já não tenho o ritmo deles), conhecem Madrid a palmo e sabem aproveitar tudo o que há para ver. Por exemplo, as filas intermináveis (davam a volta ao quarteirão) para o Prado e para o Thyssen desmoralizaram-nos, além de termos tido pouco tempo. Eles, tenho a certeza, não desistiram e conseguiram lá ir.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Assim, sim


Nem de propósito, acabo de receber esta mensagem por mail:
Os LD - Leigos para o Desenvolvimento - vão dar início a mais uma ano de formação. Ccomo já vem sendo hábito, vão realizar-se as sessões de apresentação nos diversos núcleos:
Porto - 2 de Novembro
Coimbra - 6 de Novembro
Lisboa - 8 de Novembro
Para mais informações ligue: 217 574 278
ou envie um E-mail para: ongd.leigos@gmail.com
Nota: A organização (católica) LEIGOS PARA O DESENVOLVIMENTO forma voluntários para o apoio de populações em países desfavorecidos, in loco. Este movimento propõe-se dar a estas populações mais que uma simples ajuda - oferecer-lhes um futuro. Para isso, coloca jovens licenciados a trabalhar nas áreas da educação, da saúde e da promoção social, em comunidades carentes de África e Timor. Mas há outras formas de contribuir, e todas são bem aceites, já que toda a ajuda é preciosa. Espreitem o site: www.leigos.org
Leigos para o Desenvolvimento
Estrada da Torre, nº 261769-014 Lisboa
Telefones: 21 757 43 57 ou 21 757 42 78
Fax.: 21 757 91 88

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Convite

O meu amigo Nuno Siqueira é um apaixonado e conhecedor profundo do Fado. Acaba de gravar um CD, que só pode ser muito bom. Aqui fica o convite para o lançamento desse trabalho, para todos os que quiserem ir ouvi-lo. O que posso dizer a quem gosta de Fado e estiver hesitante, é que não se vai arrepender.




NUNO DE SIQUEIRA

tem o prazer de convidar para o lançamento do seu CD

O Fado e a Vida

que se realizará no próximo dia 24 de Outubro, pelas
18,30 horas, no Restaurante Solar dos Bicos - Rua dos
Bacalhoeiros, nº. 8-B, em Lisboa.