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domingo, 13 de abril de 2008

Feira de Velharias (4)


Cada vez tenho menos paciência para a política e para os políticos. Agradeço-lhes a vocação ou a ambição, porque cada uma delas (ou ambas) os levaram a lutar por lugares que eu detestaria ter que ocupar. E alguém tem que fazer o trabalho deles, isso é inegável. A anarquia pura é uma utopia, bonita mas impensável na prática.
O que me parece é que, mesmo os mais idealistas e bem intencionados, acabam por ter que dançar conforme a música que encontram já a tocar. Os que não se adaptam e se recusam a fazer concessões, tornam-se demasiado incómodos e são convidados a sair do salão, a bem ou a mal.
Mas há os que, realmente, parecem ter nascido para essa vida. Entram a matar e cortam a direito, fazem o que acham ser preciso, a qualquer preço, e têm um (natural?) grau de distanciamento e de insensibilidade aos problemas do comum dos mortais que lhes permite nunca olhar para trás e até, quem sabe, dormir tranquilos.
É o caso do nosso primeiro ministro José Sócrates (um nome de uma enorme responsabilidade, caramba!). Tem a frieza de um cubo de gelo e a arrogância de um César. Chegou a afirmar sobre si próprio, mostrando como se tem em grande conta: «Sou um animal feroz» (Expresso, 24/07/2004). Não sei se é um animal feroz, mas é, pelo menos, ferozmente indiferente.
Eu, que não sei falar politiquês e prefiro a linguagem da poesia, dedico-lhe este magnífico poema de Carlos Drummond de Andrade: "E agora, José?"* , com a romântica ilusão de que o leia algum dia e que ele o faça pensar um pouco no quick step que nos tem obrigado a dançar, quando nem para a valsa temos sapatos...
E AGORA, JOSÉ?

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
Nota: Descobri, entretanto, que Sócrates nasceu em Vilar de Maçada. Começo a compreender os seus traumas e até entendo que tenha fugido de lá, mas, bolas!, tinha que se vingar em nós??
(* Clique aqui para ouvir o poema, dito pelo próprio CDA)
(Publicado pela primeira vez em 1/6/2007)

terça-feira, 8 de abril de 2008

Jamé dito


Estive a ouvir, deliciada, as justificações do ministro Mário Lino para as "frases infelizes" (palavras do próprio) que disse, num passado próximo de que todos nos lembramos, sobre a polémica localização do novo aeroporto.
Em entrevista à SIC Notícias, perante uma Ana Lourenço a lutar para conter o riso, Mário Lino voltou a meter os pés pelas mãos ao dizer que "jamé disse jamé", quem o disse foram os autores dos estudos apresentados. Tudo uma confusão dos media, portanto. Quanto à classificação da margem Sul como "um deserto", lá admitiu ter usado a expressão. Mas afirmou ter ficado genuinamente espantado com a repercussão que tais palavras tiveram nos autarcas atingidos e nos habitantes da margem Sul a quem tinha chamado beduínos (esta é minha, não foi ML que disse, claro), já que, no almoço onde a brilhante metáfora fora proferida, ninguém se tinha mostrado minimamente incomodado com ela.
Ora, daqui concluo que Mário Lino conhece mal os portugueses. Em primeiro lugar, a esses almoços e jantares dos políticos vai-se para comer à borla, e nunca para ouvir o que quer que seja. Depois, uma refeição é uma coisa sagrada. Desde que seja farta e bem regada, a benevolência é garantida. Mais depressa os convivas se amotinariam por um bacalhau sem sal ou uma mousse deslaçada do que por uma ofensa, mesmo que fosse às senhoras suas mães.
A seguir, garantiu vir a respeitar religiosamente o período de nojo imposto pela lei antes de aceitar um cargo de administrador numa grande empresa pública ou privada, quando sair do governo. Ou seja, ficamos a saber que já está a preparar a reforma.
Por fim, quando eu já estava a desesperar de encontrar algum interesse no desastrado ministro, algumas características pessoais suas, lidas pela jornalista no teleponto, salvaram-no do abismo sem remissão. Pelo menos aos meus olhos. Parece que Mário Lino é um fervoroso amante de ópera, tem assinatura nos concertos da Gulbenkian e é fumador de cachimbo. Por estas, confesso humildemente que não esperava.
Mas também fiquei a saber que exercita os neurónios nas tabelas do Sudoku, e isso é que me deixou desconfiada: ou treina pouco ou faz batota, porque os resultados dessa intensa actividade intelectual não se viram até agora, jamé...

terça-feira, 25 de março de 2008

De volta ao mundo real

Mais de 30 advogados começam, esta terça-feira, a colaborar com a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária para evitar a prescrição de milhares de multas de trânsito. Por cada proposta de decisão, cada advogado vai receber 1,67 euros.

(ler o resto da notícia aqui)

O estado de graça da minha primavera poética não durou muito. As notícias que nos entram pela casa dentro constantemente, triste realidade de um país à beira de um ataque de nervos (muito aguentamos nós, brandos cidadãos!) são de um absurdo pernicioso e inquietante. Estamos a viver num estado policial, muitos o sentem e todos os dias esta sensação aumenta. A pressão impõe-se, sem apelo nem agravo, e só muito raramente há uma compensação que alivie o garrote das medidas titânicas deste governo.
Sobre Justiça, acho que todos concordamos: temos, desde sempre, uma "justiça injusta" e demasiadamente lenta, em que casos de gritante e elementar reparação prescrevem por carência de efectivos e excesso de processos sobre as secretárias dos advogados que o Estado paga (leia-se: que nós, todos nós, pagamos com as nossas contribuições e impostos). Direitos básicos são ignorados, reclamações mais do que justificadas são liminarmente eliminadas pelo implacável cilindro do Tempo, sem que ninguém faça nada para alterar este estado de coisas.
A medida agora anunciada - as multas de trânsito prestes a prescrever, "salvas" do esquecimento por advogados privados pagos "à peça" pelo Estado (leia-se de novo: por todos nós) - prova bem, uma vez mais, o que é prioritário para os nossos governantes: arrecadar receitas, a todo o preço. A criatividade das medidas é toda canalizada para este objectivo único, que se sobrepõe a todas as outras necessidades nacionais. Uma solução deste tipo - a contratação pontual de advogados desempregados ou mal pagos - pagando-lhes da mesma forma, poderia acelerar a resolução de muitos desses casos que se eternizam nos tribunais. Mas não: ganhou a caça à multa e aos trocos dos portugueses. Isso, sim, é importante. Estamos entendidos.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Feira de Velharias (2)

A vitória do sr. Costa

Vieram de Freixo-de-Espada-à-Cinta, de Cabeceiras-de-Baixo e de Alguidares-de-Cima, todos eles interessadíssimos no resultado das eleições na capital. Chegaram nas carrêras apinhadas, cantando a plenos pulmões, pelo caminho: "1, 2, 3, 4, 5, 6, 7... viva a nossa caminete!" e "Senhor chófer, por favor, ponha o pé no acelarador!".
Trouxeram os fatos de-ver-a-Deus, as arrecadas e cordões de ouro e os sapatos bem engraxados, porque não é todos os dias que se aparece na televisão. Sorriram para as câmaras com as dentaduras dançantes, sonoras como castanholas, de olhos arregalados pelo tamanho do hall do hotel Altis (maior do que a Casa do Povo inteirinha, benza-o Deus!). Receberam bonés e bandeirinhas para agitar no ar, que puderam levar para casa para exibir depois, orgulhosamente, no vidro de trás do carro. Tiveram direito a ração melhorada e a fotografia de grupo da excursão, para mais tarde recordar.
Mas... recordar o quê? Que foi preciso chegar-se ao ridículo de recrutar gente por esse país fora para fazer número, para gritar vivas ao candidato vencedor de Lisboa (aquele senhor que aparecia dantes lá na terra, a prometer muitas coisas quando toda a serra já tinha ardido...), porque os lisboetas se estão marimbando para a palhaçada da política, foram todos a banhos e já descobriram, há muito tempo, que não há almoços grátis?
Era vê-los, felizes mas um bocadinho apardalados, sem saber muito bem ao que vinham. Por Mafra passaram a correr, viram o convento de longe, "é grande, o manganão", e desaguaram em Lisboa sem saber como. Mas, que importa lá isso? Valeu o cumbíbio. E os comes e os bebes.
O resto?... o resto é paisagem!
(Publicado a primeira vez em 17-07-2007)

terça-feira, 4 de março de 2008

Rótulos


Politicamente, sei que estou exactamente onde quero estar quando os amigos de direita me acham esquerdista, e os de esquerda não têm dúvidas de que sou de direita.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Cuba

Na melhor nódoa cai o pano.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Minúsculo


Voltando à remodelação ministerial, ou àquilo que pretende parecer: o despedimento de Correia de Campos não passa afinal de um "pequeno acontecimento". Exactamente como o foi, para ele, a morte de uma pessoa.
Era só isto.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Uma lágrima, um voto

Acabei de ouvir Marcelo Rebelo de Sousa dizer que Hillary Clinton ganhou em New Hampshire porque chorou em público. Ao que parece, comoveu-se e soltou umas oportuníssimas lágrimas, quando uma velhinha lhe perguntou como reagia ao excesso de pressão desta campanha.
Concluíu Marcelo que a senhora mostrou, desta forma, uma faceta mais humana que lhe rendeu votos preciosos. Talvez tenha razão, não sei. De qualquer maneira, ver alguém chorar por votos, a mim, parece-me hillaryante.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Porque no te callas?


Que Mário Soares sempre cultivou uma pose majestática, já todos sabemos. O país deixou-o sempre brincar aos reis, porque sempre lhe achou graça e sempre lhe perdoou tudo. Em nome de uma dívida antiga, possivelmente, já que ele nos "salvou" de uma mais do que certa condenação a um comunismo radical altamente preocupante, à época. Mas Soares não pode queixar-se do seu país: Portugal tem demonstrado larga e generosamente a sua gratidão, concedendo-lhe uma espécie de carta branca (que atribui a muito poucos, note-se) e aturando todos os caprichos e excentricidades deste seu longevo enfant gaté. Às vezes, já um bocadinho farto, diz-lhe um "basta!", como aconteceu nas últimas eleições presidenciais. Mas, normalmente, deixa-o passear a sua coroa fictícia sem comentários de maior. Trinta e tal anos depois, a tal dívida já foi, quanto a mim, mais do que saldada.
Mas Soares leva o seu papel de rei muito a sério. Agora, segundo parece, foi o seu "par" espanhol que o inspirou. Na Fundação onde instalou a sua corte, mandou calar sem cerimónias um membro da plateia que interrompeu o discurso de Sócrates com um comentário crítico, dizendo-lhe: "O senhor cale-se, está aqui como convidado mas também pode ser convidado a sair." .
Ora aí está. Para quem sempre fez da liberdade de expressão uma bandeira, não está mal...

domingo, 16 de dezembro de 2007

Discurso histórico

A selar o famoso Tratado que engalanou Lisboa e levou o primeiro ministro a orgasmos múltiplos de eloquência e protagonimo, aqui fica o comentário do correspondente da BBC, Mark Doyle, em Lisboa:
«The Summit ended, as do most meetings of this sort, with smiling photocalls. The Portuguese Prime Minister, Jose Socrates, gave an extraordinary closing speech which spoke about bridges being built, steps forward being taken, and visions being pursued.
He went off on such an oratorical flight, in fact, that I became mesmerised by the beauty of the Portuguese language and the elegance of his delivery. I was so bewitched that I didn't register any concrete points in the speech at all.
Perhaps there weren't any. But it certainly sounded good».
Acho que está tudo dito. Ninguém como os ingleses para apanhar os ridículos dos outros. O pior é quando não exageram.
Nota: Obrigada ao Manel, que me enviou o texto (que está entre aspas) por e-mail.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Destratado no Tratado


Pela segunda vez em pouco tempo, o pobre ministro Luis Amado (mal-amado, mais propriamente) ficou de mão estendida e ar triste, sem o bacalhau prometido. Agora foi na assinatura do Tratado de Lisboa, à porta do Mosteiro dos Jerónimos, talvez por culpa da confusão gerada pela gaffe protocolar do irrequieto "Sarkô".
É certo que já aprendeu a disfarçar a desfeita que sempre lhe toca, e, desta vez, um ligeiro aperto de... braço, livrou-o de maiores constrangimentos. Mas começo a ter pena dele, porque, se o ditado está certo, não há duas sem três.
Talvez esta pose - de braços firmemente cruzados - o salve da terceira humilhação.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Humor negro

Como querem que eu respeite a política em Portugal, quando a primeira figura (triste, por sinal...) do maior partido da oposição aproveita a notícia de um crime qualquer para exigir ao primeiro ministro um pedido de desculpas ao povo pela falta de segurança no país???

Será que Menezes acha que faltam motivos SÉRIOS para apontar o dedo ao governo? Será que a demagogia mais básica se aliou de vez ao ridículo? Será que a imaginação e sentido de oportunidade de LFM não chegam a mais do que a esta miséria?

Preocupa-me a prepotência imparável deste governo, mas assusta-me ainda mais a falta de alternativas válidas.

O Bordalo é que os topava bem.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Cimeira?


Não percebo porque é que chamam Cimeira a uma tal exibição de ditadores implacáveis e desumanos, tratados pela Europa com todas as honrarias, como se fossem gente de carácter e digna de admiração.
É triste e dá que pensar. Por que valores, afinal, se rege o mundo ocidental (dito "civilizado"), se se verga assim aos diamantes e ao petróleo com tanta facilidade, esquecendo o sangue que escorre de ambos? E não me venham com tretas de "oportunidade única de discutir os direitos humanos". A mim, cheira-me a rendição e a hipocrisia.
Eu chamar-lhe-ia, antes, uma Baixeira.
(Nota: Este post é dedicado ao Pedro Correia, do Corta-Fitas, que tem feito nas últimas semanas um útil e exaustivo levantamento das biografias destes meninos de coro. Leiam-nas, vale a pena.)

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Na minha, não!



Como não tenho tempo para escrever, faço minhas todas as palavras do FAL, do Corta-fitas.
E só acrescento: há pelo menos uma casa neste país, senhor primeiro ministro, onde o seu convidado-maravilha não será recebido: a minha.

sábado, 17 de novembro de 2007

Campista ilustre


Preocupa-me o dilema de protocolo do MNE com o sítio onde instalar a tenda de Kadhafi, já que o homem se recusa a dormir debaixo de telha.
Por isso, aqui fica o meu humilde contributo para resolver o problema que tanto atormenta a Missão da Presidência da UE: uma lista dos parques de campismo do distrito de Lisboa. Todos com águas correntes, quentes e frias. Até junto os números de telefone para uma reserva prévia, não vá dar-se o caso de não haver vaga. Se nenhum destes servir, talvez o INATEL. Pronto, pronto, não me agradeçam. Temos que ser uns para os outros.
Alenquer
Alenquer Camping
263 733 224
Cascais
Guincho (Orbitur)
214 857 019
Ericeira
Mil Reguengos (Parque Municipal)
261 862 513
Lisboa
Lisboa Camping
217 623 100
Lourinhã
Areia Branca (Parque Municipal)
261 412 199
Mafra
Sobreiro
261 815 525
Sintra (Colares)
Praia Grande
219 290 581
Vila Franca de Xira
Vila Franca de Xira
263 275 258

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Heavy Chávez Remix

Para acabar de vez com este assunto, aqui está uma boa ideia: em vez de falar nele... dançá-lo! Chávez presta-se, convenhamos: é heavy em vários sentidos. E o remix assenta-lhe como uma luva.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Os palhaços de serviço


Não deixa de ser irónico que tanto a esquerda como a direita internacionais tenham, hoje em dia, os seus "palhaços de serviço".
Até agora era Bush o bobo da corte "a pedido", fornecendo um inesgotável manancial de gaffes e constrangimentos, para grande gáudio da esquerda. Mas eis que apareceu Chávez, e as forças equilibraram-se em termos de ridículo. O que me parece saudável, porque isso afasta a tentação de se usarem argumentos falaciosos e obriga os políticos e comentadores a centrarem-se no que realmente interessa. Sem batotas fáceis, já que há telhados de vidro de ambos os lados.
Imagens: George Bush (via Causa Nossa); Hugo Chávez (via Arrastão)

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Como é lindo o amor europeu

E se eles querem um abraço ou um beijinho... nós, pimba!