quarta-feira, 11 de julho de 2007

Confiança cega


Post de DJ no Bar Velho, que aqui transcrevo por me parecer fundamental divulgar estes atentados à nossa privacidade, cometidos por quem devia defendê-la mais do que ninguém - os bancos. Os call-center são soluções baratas, eu sei, que poupam nos funcionários contratados, eu sei, mas é absolutamente inadmissível este diálogo numa instituição que se preze.



«Conversas reais

Conversa real estabelecida entre mim e a linha do Millennium BCP esta tarde:
- Millennium BCP, muito boa tarde, em que posso ser útil?
- Gostaria de activar o Tele MB para a TMN, sff.

- Estou a falar com o Sr. X?

- Sim.

- Está a falar com Y. Como está?

- Bem obrigado. Como está?

- Bem obrigado. Quer activar o Tele MB, certo?

- Certo.

- Qual é a rede a que quer associar o serviço?

- TMN.

- Qual é o número em causa?

- 96 xxx xx xx.

- Quais são os quatro dígitos do seu telecódigo?

- Desculpe?

- Qual é o seu telecódigo?

- Mas porque quer saber isso?

- Tem que mos dizer para poder activar o serviço.

- Desculpe, mas quer saber o meu código? Acha mesmo que alguém no seu perfeito juízo vai dar um código que permite realizar operações bancárias, a uma pessoa que não se conhece de lado nenhum?

- O senhor não me conhece, mas pode confiar em mim.

- Eu? Desculpe lá, nós estudámos juntos, vamos para os copos, ou algo parecido? Eu nem sei se você é loira, se é morena, quanto mais se é de confiança.

- Mas o senhor não tem confiança no Millennium?

- Se quer que lhe responda com sinceridade, não.

- Então porque tem cá o dinheiro?

- Dá jeito para receber transferências, dado muita gente e muitas instituições terem conta no Millennium.

- Mas não confia no banco?

- Não.

- Mas em mim pode confiar. Você pode não me conhecer, mas sou de confiança.

- A senhora não vê televisão? Toda a gente aconselha a não dar os códigos a desconhecidos. E mesmo que ninguém dissesse isso, alguém com o mínimo de juízo e bom senso saberia que não se deve dar os códigos a desconhecidos. Por acaso quer que lhe diga os meus códigos dos meus cartões e os códigos de acesso a esta linha?

- Não! Não! Isso é muito diferente!

- Então posso ou não posso confiar em si?

- Pode confiar em mim. Sou funcionária do banco, sou de confiança.

- Minha senhora, em 385 chamadas que já fiz para esta linha, 380 acabaram com uma reclamação minha. Acha que posso confiar em si?

- Em mim pode, não posso responder pelos outros.
- Espero que já tenha entendido que não lhe vou dar o meu telecódigo.

- Não compreendo porque não confia em mim...

- Quero falar com o supervisor, sff.

- Mas porquê? Está a duvidar de mim?
- Minha senhora, não tenho que duvidar ou deixar de duvidar de si. Não dou um algarismo que seja a pessoas que não conheço de lado nenhum.
- Por favor, peço-lhe que não me ofenda. Pode confiar em mim e no banco.

- Passe-me ao supervisor, sff.

Chamada passada ao supervisor. A mesma ladainha. Chamada desligada por falta de paciência e de confiança no Millennium e nas suas pessoas, com a especialidade de, na chamada com o supervisor, este ter dito que nos conhecíamos porque tinha resolvido um problema meu há quatro meses atrás e que eu tinha motivos para confiar.»

6 comments:

Mad disse...

Incrível! Pensei que era só aqui no Brasil que as pessoas achavam perfeitamente normal dar a pessoas que não conhecem o código dos cartões, pessoas essas que os roubam indecentemente!

Mad disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mad disse...

(desculpa, pus o mesmo comentário duas vezes)

av disse...

é, estamos a andar para trás a toda a velocidade...

Lord Broken Pottery disse...

Ana,
Incrível! Trabalho em banco e nunca soube de operação que exigisse ao cliente fornecer códigos de acesso. Absurdo!
Beijo

av disse...

É inexplicável, de facto. Parece um texto cómico, mas não é.

ana