terça-feira, 25 de março de 2008

De volta ao mundo real

Mais de 30 advogados começam, esta terça-feira, a colaborar com a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária para evitar a prescrição de milhares de multas de trânsito. Por cada proposta de decisão, cada advogado vai receber 1,67 euros.

(ler o resto da notícia aqui)

O estado de graça da minha primavera poética não durou muito. As notícias que nos entram pela casa dentro constantemente, triste realidade de um país à beira de um ataque de nervos (muito aguentamos nós, brandos cidadãos!) são de um absurdo pernicioso e inquietante. Estamos a viver num estado policial, muitos o sentem e todos os dias esta sensação aumenta. A pressão impõe-se, sem apelo nem agravo, e só muito raramente há uma compensação que alivie o garrote das medidas titânicas deste governo.
Sobre Justiça, acho que todos concordamos: temos, desde sempre, uma "justiça injusta" e demasiadamente lenta, em que casos de gritante e elementar reparação prescrevem por carência de efectivos e excesso de processos sobre as secretárias dos advogados que o Estado paga (leia-se: que nós, todos nós, pagamos com as nossas contribuições e impostos). Direitos básicos são ignorados, reclamações mais do que justificadas são liminarmente eliminadas pelo implacável cilindro do Tempo, sem que ninguém faça nada para alterar este estado de coisas.
A medida agora anunciada - as multas de trânsito prestes a prescrever, "salvas" do esquecimento por advogados privados pagos "à peça" pelo Estado (leia-se de novo: por todos nós) - prova bem, uma vez mais, o que é prioritário para os nossos governantes: arrecadar receitas, a todo o preço. A criatividade das medidas é toda canalizada para este objectivo único, que se sobrepõe a todas as outras necessidades nacionais. Uma solução deste tipo - a contratação pontual de advogados desempregados ou mal pagos - pagando-lhes da mesma forma, poderia acelerar a resolução de muitos desses casos que se eternizam nos tribunais. Mas não: ganhou a caça à multa e aos trocos dos portugueses. Isso, sim, é importante. Estamos entendidos.

20 comments:

miguel disse...

Ó Ana: que os nossos governantes querem é arrecadar receitas, sim,estás certa, mas não é a qualquer preço. No caso é a 1,67€ por multa resolvida o que, aqui para nós , até pode ser um bom negócio.

E, olha: essa história de sermos nós a pagar aos jovens advogados desempregados é o mesmo que dizer que somos nós que vamos embolsar as receitas.O que, repito, ao preço da tabela, também pode ser mesmo um bom negócio !( contentava-me com 10% do valor de cada multa paga)

" Caça à multa e aos trocos dos portugueses" - irmãos brasileiros : percebeis mesmo as nossas expressões??


"...que alivie o garrote das mediddas titânicas do governo" - literariamente belo mas magnânime, do meu ponto de vista!

:)

av disse...

Não duvido de que seja um bom negócio, Miguel. O que questiono é as prioridades deste governo, que não deixam margem a dúvidas.

E com mais esta tua pronta defesa, declaro oficial a tua candidatura ao cargo de guarda-costas de Sócrates. Se não to derem, é de uma injustiça atroz! Tu até corres bem, se for preciso fugir...

Irmãos brasileiros: perdoai-lhe, que ele não sabe o que diz...

CoRa disse...

Rsrsrs... Perduatum Est... E o pior: aqui é tudo igualinho... rsrsrs

musqueteira disse...

... e as receitas dos casamentos?... eheheheh.
ainda o senhor socrates não se lembrou dos funerais... os que aconteceram em 2009! deve dar uma pipa de massa ao estado.

musqueteira disse...

... perdão! os que "irão" acontecer.

av disse...

Cora,
Infelizmente, não é?
Beijinho

Musqueteira,
Já não falta muito para os portugueses ficarem paralisados em casa, com medo de mexer um músculo e pagar impostos por isso. Não casam nem se divorciam (comer, já quase não comem...), e passam a esconder os mortos nas arcas frigoríficas para não pagarem impostos extra. E mesmo assim há-de ser taxado quem ousar morrer antes de chegar à idade da reforma...

African Queen disse...

E lá se foi a Primavera :)... que ao ler isto o meus espirito ficou invernoso e cinzento... eu ando tão zangada, mas tão zangada com este país que estas notícias me agoniam. E a questão é mesmo essa, as prioridades e não a pertinência, obviamente, de aplicar a lei e dar seguimento às multas. Ainda há poucos dias em conversa com um amigo apercebi-me com profunda indignação da forma irresponsável com que se sobrecarregam os assistentes sociais no tribunal de menores, impedindo-os de realizar o seu trabalho para além do que é burocrático... ou seja, impedindo-os de todo de fazer o seu trabalho, que é com pessoas e não com papeis com números de processo... aí não acharam por bem investir no aumento de pessoal :(.
Enfim... e estes pobres profissionais que agarram qualquer oportunidade de trabalho, mesmo que mal paga, provavelmente a recibo verde nem sabem o tempo que vão demorar a receber... eu que ultimamente só trabalho para a administração pública, só lhes digo que se podem sentar sossegaditos durante meses e meses e não vale a pena reclamar, que eles dizem que a culpa é do Salazar que criou um sistema de administração pública muito complexo. Ora bolas! Desculpa o testamento Ana... mas estas coisas mexem comigo...

Luísa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luísa disse...

Querida Ana, também revolta a perseguição assanhada ao pequeno «prevaricador», quando se sabe da impotência perante o grande «criminoso».

av disse...

Queridas AQ e Luísa,
A sensação que me dá é que todos os valores estão invertidos: o que é realmente importante não é valorizado, e vice versa. Nada a fazer? Não sei, mas pelo menos vamos denunciando as situações e tentando remar contra esta maré. Tudo menos a anestesia colectiva em que este país parece estar, que é o pior de tudo.

O Réprobo disse...

Uf! Ainda bem que deixei de ser advogado há 18 anos! Ainda me davam como cúmplice dessas violências!
Beijinho

peri s.c. disse...

O Estado hoje é ( ou será que sempre foi ? )um vampiro insaciávela sugar o que pode da sociedade. E no geral, exceto nos países socialmente bem desenvolvidos ( nórdicos, Canadá, desconheço as situações específicas do resto da Europa )pouco devolve do que pagamos. Carregamos um fardo pesadíssimo.

estrelicia esse disse...

O que eu não daria para viver noutro lado... E depois ainda vão me dizer que é um traço tipicamente português, isso de nunca estar bem onde se está. Mas, como é que se pode estar bem num país assim?

musqueteira disse...

...e eu diria ainda mais- cara AV-, qualquer dia ainda se lembra o team socrates que todo o português tem que pagar uma taxa a portugal sempre que cruze a fronteira. dava um bom negócio nas fronteiras para espanha, por ex... se este for lá ás compras ou mesmo de passeio, truclas... dá cá dinheiro! será o plano taxex...ou seja: a taxa do passeio.

Lord Broken Pottery disse...

Ana,
Tentando voltar a visitar os amigos. Uma das coisas que mais me intrigam são as coincidências que superam nacionalidades. Os problemas são mais ou menos os mesmos em todos os lugares. Aqui fala-se muito em indústria de multas. É evidente a sanha arrecadadora dos governantes. Para isso aquilo que chamamos de justiça torna-se irrelevante. O importante é custear a máquina. Esse amontoado de roldanas espertas que têm com objetivo maior lesar o cidadão.
Beijo grande

Capitão-Mor disse...

Em época de crise é o vale tudo! Como sempre, quem se lixa é o Zé povinho!

av disse...

Paulo, como eu o compreendo... mas perdeu-se, com certeza, um bom advogado!

Peri, acho que tem toda a razão, e lamento ter que dar-lha. Afinal o Estado somos todos nós, e o colectivo deveria ser a prioridade máxima. É triste que não seja assim.

Estrelicia, esse traço tipicamente português é que nos fez descobrir o mundo. Ainda bem que o temos. Acomodados como somos, se não tivéssemos o apelo das viagens já estaríamos todos transformados em pedra...
Quanto a viver noutros sítios para fugir da miséria em que estamos, o pior é que isso tem outros custos, quase sempre. O da segurança, por exemplo. Nisso, ainda digo "ainda" porque a situação está a mudar, infelizmente) damos cartas.

Musqueteira, isso é que seria mesmo dramático! Espero que não se lembrem dessa...

Lord Caco,
Meu amigo, seja muito bem reaparecido! Tinha saudades de vê-lo por aqui, sabe? Volte sempre, esta casa é sua.

Capitão,
E há quanto tempo é que a época não é de crise?? E quando deixará de sê-lo?? Pois é, o problema é que a crise se tornou a regra...

Beijos a todos

filomeno2006 disse...

La fotografía del agente multador corresponde a un número de la Benemérita de Tráfico.........

av disse...

Seja muito bem-vindo, Filomeno. É o primeiro comentador internacional deste blog! Se bem que a Galiza não é propriamente o estrangeiro, antes um lugar de ancestral sintonia com Portugal...
Abrazo

filomeno2006 disse...

Pois é......!
Ab.