sábado, 9 de fevereiro de 2008

Baleal, um amor antigo

Todos nós temos uma praia. A "nossa praia". Uma espécie de mundo encantado, perdido no tempo, onde estão guardadas, intocáveis, as nossas mais doces lembranças da infância e da adolescência. A minha é, sem dúvida, o Baleal. Estive afastada dela, fisicamente, durante anos. Mas o espaço que este lugar especial teve sempre no meu coração nunca foi ocupado por nenhum outro. Por qualquer razão que desconheço - há forças subterrâneas que não têm explicação simples, e são mais importantes do que pensamos - o Baleal voltou a tornar-se um apelo fortíssimo na minha vida. Sinto-lhe, mesmo de longe, o eterno cheiro a maresia, o vento cortante das madrugadas, a extrema brancura da areia finíssima. Cinco sentidos alerta, à espreita das memórias. Porque todas as velhas memórias se corporizam neste lugar mágico, onde o tempo teima em não passar.

Ando há muito tempo para escrever sobre o Baleal. Mas a minha irmã Madalena descreveu-o assim, e eu nunca o faria melhor. Convido-vos a ler esta declaração de amor à minha praia, à nossa praia de infância:

A Ilha do Baleal é um daqueles sítios alcançados por bafo divino em dia de suprema inspiração, dona de uma beleza natural que, além de absolutamente estonteante, é originalíssima na costa portuguesa (digo eu, que não a conheço toda), e isto só do ponto de vista geográfico e não do resto (ao dito resto iremos, a seu tempo). A Ilha, que não o é, sê-lo-ia quase se não estivesse ligada ao “continente” por uma língua de areia com duas praias – e aqui começa a originalidade, mas nem por sombras se esgota – que se enfrentam, mais que se admiram, mesmo em frente uma da outra.

Nós, os nativos, insistimos em chamar-lhe Ilha, talvez porque há muitos anos quem a frequentava lembra-se bem de chegar ao Redondo e ter que esperar que a maré baixasse para poder atravessar, pois a maré cheia juntava as águas até quase se perder o pé, ou pelo menos até tornar perigosa a travessia, por causa das correntes fortíssimas formadas pela junção das duas águas. O que, aliás, acontece ciclicamente, e é só mais uma das suas originalidades: a Ilha comporta-se como se tivesse vontade própria, transforma-se quando lhe dá na gana, renova a sua imagem, redefine os seus caminhos, o tamanho das suas praias, a quantidade da sua areia, a altura das suas rochas até quase à véspera familiares,provavelmente para nos confundir, nos encantar ou simplesmente nos fazer reapaixonar pelas suas formas renovadas.


Nega sistematicamente – ou não fosse ela um espírito livre – todas as transformações feitas por mão humana, imperfeitas por definição e desígnio divino, como o famigerado pontão para passagem de carros, espécie de cicatriz de uma operação mal conseguida, quase todos os anos reparado porque o mar o enche de areia ou porque lhe tira tanta que lhe faz perigar os alicerces, como se a própria Ilha o rejeitasse como corpo estranho, coisa de tal maneira óbvia que nós, míseros mortais e pouco sabedores dos mistérios da natureza, não alcançamos à primeira vista. Ou talvez porque, no fundo, desejamos que ela realmente venha ser uma ilha perdida nas brumas, inacessível aos milhares de veraneantes atraídos como mariposas pelo seu brilho.


De um lado, a ilha oferece-se ao continente, generosa na fartura das suas praias gémeas – falsas – uma de águas calmas mas perigosas, a outra de águas revoltas e correntes fortes mas previsíveis. Como a mente humana, aliás: toda a Ilha é uma analogia. E ainda nos oferece mais duas praias, uma escondida do primeiro olhar, por ser reduto antigo de barcos de pesca e por definição segura, protectora, aconchegante: a dos Barcos; e outra tão pequena que torna admirável o facto de ter sido baptizada: a das Cebolas, ainda que o seu nome não seja nem remotamente poético.


Do outro lado, aberta ao azul-cobalto, a Ilha mostra a sua face rebelde, gigantesca e sempre agreste, menos moldada às vontades humanas e imune a invasões. É o lado oceânico, com vista para as Berlengas, sua congénere longínqua e ao mesmo tempo ali tão perto, e para os Farilhões, ilhotas desertas e heliporto exclusivo de pássaros marinhos, a eterna inveja da nossa Ilha de alma eternamente selvagem. Ela aponta-lhes a sua proa cortante e abrupta, como se quisesse levantar âncora, imitando penínsulas saramaguianas na desesperada tentativa de se lhes juntar. A prová-lo, a Ilha das Pombas, esta com I maiúsculo por direito próprio, rochedo virgem e rebelde que fugiu das saias da mãe, conseguiu desertar da cobiça humana e buscar uma vizinhança composta exclusivamente por seres marinhos, ou quando muito alados, e fez-se ao mar há já uns bons milhares de anos.


Ainda que de rocha pura, a Ilha tem essência marinha, feminina. É mais feita de mar que de terra – a prová-lo o facto de não haver uma única árvore em todo o seu território, nem mesmo um pessegueiro, ainda que de outros tempos, só tojos raquíticos que sobrevivem à custa de pura teimosia – quase como se criar raízes não calcárias fosse motivo de vergonha para uma ilha que se preze...



É orgulhosa, a nossa Ilha. Não nos quer lá – ou não nos brindasse com tempestades quase de granizo em pleno estio, e só aos parcos mas persistentes visitantes invernais concede raras manhãs ensolaradas, gloriosas, ainda que gélidas. Parece até que considera esta adoração de que é objecto um contratempo, uma contrariedade temporária de que se verá livre rapidamente – para ela o tempo é efémero e o seu não se mede pela mesma medida que o nosso. Uma vida humana é um décimo de segundo. A memória da geração anterior somada a uma vida de agora não é mais que um suspiro.Talvez nos deixe construir casas porque as pintamos de branco, quem sabe as confunde com velas desfraldadas ao vento e conta com elas para sair mar afora, rumo ao pôr-do-sol...



(Fotografias: Mário Cordeiro)

22 comments:

MariaV disse...

O Baleal não é a minha ilha, mas é um dos poucos lugares onde alguma vez me senti livre. De pequena, na vossa casa ou na dos primos, ficou-me o cheiro a sal das casas construídas sobre as rochas e a sensação única de só precisarmos de sapatos para a missa, ao domingo, naquela capelinha, também ela a cheirar a sal e a mar, que tem qualquer coisa de mágico. Gosto de lá voltar, fora do Verão, e mesmo que o vento sopre com força e os salpicos do mar se misturem com chuva, lá eu faço de conta que a liberdade é tão real a beleza do mar.
Fizeste-me ter saudades.
Beijo

Teresa disse...

A MariaV acaba de referir a capelinha. Também eu lá ia à missa aos domingos.

As praias da minha infância foram S. Martinho e a Nazaré, mas reconheço emocionada em cada linha do magnífico texto da Madalena o Baleal que lembro de há muitos anos, do tempo em que a travessia só se fazia na maré baixa. Isso até viria a arruinar-me por completo um fim-de-semana romântico. Chegámos tarde, a água já a subir, e eu apanhei uma constipação medonha. No dia seguinte, na farmácia de Peniche, venderam-me Constipal... e eu passei três dias quase permanentemente a dormir.

Voltaria mais tarde, alguns anos depois, novamente com a mesma pessoa. E andando nós todas pela mesma idade, sorrio agora divertida da quase certeza de vocês a conhecerem. Continua a ter casa na ilha...

E também eu ando há séculos para escrever sobre a Nazaré.

Um beijo.

av disse...

Mariav,
Eu também prefiro o Baleal no Inverno ou, melhor ainda, na Primavera ou no Outono. Tudo menos o caos do Verão, com gente, barulho e confusão a mais para o meu gosto. Tenho saudades do tempo em que as chaves ficavam todo o dia do lado de fora das portas, e nós passávamos directamente do fato de banho ao pijama, depois do último banho (das oito da noite) na Praia dos Barcos. Esse tempo, e tudo o que lhe está associado, não volta. Mas o Baleal ainda é o mesmo para os meus olhos, só tenho que escolher a altura em que lá vou.

Teresa,
Chegamos sempre à mesma conclusão divertida: este país é um quintal. Ou uma cama grande, como diz uma amiga minha.
Havemos de tirar isso a limpo, em sede mais recatada...

Capitão-Mor disse...

Um texto verdadeiramente apaixonante de uma das minhas praias de eleição. Descobri-a numa excursão de liceu e nos anos seguintes dava lá um pulinho sempre que podia.
Aquela areia fina é qualquer coisa de memorável, assim como aquele intenso cheiro de maresia que nos revigora a alma.
Boa semana para ti!

av disse...

Boa semana também, Capitão.

Mad disse...

Olha, olha... assim deixas-me envergonhada.

PS - Estamos quase no dia 11!!!!!

Sofia disse...

Meninas... desculpem ser má... mas foi lá que estive hoje a ver o pôr-do-sol... um fim de tarde lindo, a praia quase deserta (mesmo como eu gosto!), uma brisa linda, o nevoeiro a começar a cair, o céu cheio de cores... ai ai... nada melhor para dizer adeus ao fim-de-semana! Desculpem, mas tinha de vos fazer inveja!

Mad. o teu texto é perfeito...

beijinhos
p.s. Av. esta inveja que tento fazer-te é para me vingar do travesseiro de Sábado!

PP disse...

Dá um beijinho meu à tua mana Madalena por texto tão bonito que consegue transformar as palavras em lindas fotografias, tais como as tuas que aqui acompanham estas palavras de encantamento.
Baleal não se esquece vive-se, visualiza-se, sonha-se, ama-se.
Beijos e até sempre, pp.

PP disse...

Quiz dizer tais como as fotografias do Mário.
Beijos, pp.

PSB disse...

Ana

O Baleal entranha-se de tal maneira na nossa pele que, com a maior naturalidade, o chamamos nosso.
Mais ainda quando as primeiras recordações nos levam aos tempos da nossa meninice, daquelas que ficam gravadas a ferro e fogo na nossa memória.
A praia (do lado do Baleal, que a de Peniche era para os forasteiros) com as barracas de lona às riscas do velho Acácio, os banhos (com grandes cavalgadas nas ondas a bordo dos colchões Repimpa), o Café da Preciosa (nessa altura que jeito tinha dado a ASAE para o extreminar) e o do Zé e da Maria (do Botão) cheio de conchinhas nas paredes, as noites frias e húmidas pré-Clube, com correrias e brincadeiras pelas ruas e travessas, as exploração das grutas no Forte, os amores envergonhados da adolescência.
Recordações boas de um tempo em que o Baleal era realmente só nosso, em que todos se conheciam, em que as crianças andavam despreocupadamente em todo o sítio, em que os carros ficavam estacionados nos palheiros do António Ranholas no Redondo (excepto os 4 ou 5 jipes Willis que havia e os poucos temerários que tinham unhas para atravessar o areal com o carrinho de família), das travessias de maré cheia às costas do Tóino, dos burros a acartarem os pertences para os meses de férias.
Recordações que todas as gerações que lá viveram estes tempos de juventude, tornam, aos seus olhos, o Baleal incomparável. Tal como se passa, hoje em dia, com os meus Filhos.

Obrigado Ana por teres trazido o Baleal ao teu blog, numa bonita homenagem (mesmo tardia) que me proporcionou estas recordações tão boas, o belíssimo texto da Madalena de uma inspiração apaixonante (parabéns Madalena) e as belíssimas fotografias do Mário (parabéns Mário) que o ilustram de forma eloquente.

Beijinhos

African Queen disse...

Que lindo texto partilhaste aqui Ana! Os parabéns à autora também.
Não conheço o Baleal. Na minha memória vivem outras praias, a da Torreira na infância, com os pescadores a puxar as redes com a ajuda dos bois, a minha e a dos meus primos ... mas fiquei com uma vontade enorme de visitar a Ilha...

Sinapse disse...

Recordar é viver. A frase está muito batida, mas eu gosto na mesma. O significado é intenso ... principalmente para os espíritos (almas?) nostálgicos, como o meu.

Adorei este post, a belíssima descrição feita pela Madalena, as fotografias ... eu, que nem conheço a praia do Baleal.

Beijinhos,
Sinapse

Sinapse disse...

Então hoje é dia 11 ... apercebi-me pelos comentários que será data especial ... eu aniversário, maybe? ;))

Parabéns! dia feliz!!

av disse...

PP, que bom ver-te aqui outra vez! O nosso almocinho não está esquecido, deixa só passar esta onda impossível de trabalho em que eu tenho andado.
Tens razão, o Baleal encanta-nos sempre. E as imagens fazem-lhe total justiça, o Mário é um óptimo fotógrafo.
Beijinhos e volta sempre.

av disse...

AQ e Sinapse, conhecer o Baleal é obrigatório. Vão lá e depois digam o que acharam.
Beijinhos

av disse...

PSB,
Leio-te e relembro tudo isso. Memórias de um tempo mágico, num sítio mágico. Acho que fomos (e somos ainda) uns privilegiados.

Um dia destes meto-me no carro e vou lá, em peregrinação de memórias. Sozinha. Assim como uma espécie de encontro secreto, sem testemunhas.
Fica aqui a promessa, Baleal. Espera-me no Redondo.
Eu vou.

Teresa disse...

É isso que eu faço com a Nazaré. Vou lá sozinha. Passo a noite a ler Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, a poltrona encostada à janela aberta para a praia. Engraçado teres usado a mesmíssima palavra que uso sempre: peregrinação.

miguel disse...

Alto: belíssimo texto da Madalena ( que já conhecia) mas belíssimo texto do psb,também, a provar que faltou homem no extinto blogue da ARAPB.E o "Baleal Sem Carros" tão esquecido.

av disse...

Teresa, mais uma "coincidência" entre nós? Parece-me que, ao contrário das bruxas, no las hay...
;)

Miguel, tens toda a razão. O texto do Pedro é precioso pelos pormenores, que são as recordações de todos nós. Mas estamos sempre a tempo de apreciar bons textos e de homenagear o nosso Baleal.
Por isso, Pedro, fica aqui desde já um convite: sempre que quiseres, o Porta do Vento publica os teus textos com muito gosto. Sobre o Baleal ou não, claro, que aqui não há temas obrigatórios. Isto se não estiveres a pensar já em fazer um blog só teu, o que não me espantaria nada...

Um beijo

PSB disse...

Meus Queridos (Ana e Miguel)
Fico agradecido e agradado, mesmo babado, com os vossos elogios que enchem todo o ego.
Mas, tenho consciência das minhas 'limitações' literárias para tão honroso desafio, Ana, até quando comparadas com a vossa facilidade de comunicação quando se abre uma Porta do Vento ou se desentope um Algeroz. Naturalmente que vos continuo a seguir e a comentar, sempre quando na gana me der.
E blog próprio, Ana, não tenho tempo e, principalmente, estaleca para tal empreitada. Para além do mais, sou um maçarico blogosférico. Nem sabia o que nem como fazer.
Mas os vossos comentários já valeram tudo.
Beijos e abraços

av disse...

A oferta mantém-se, Pedro.
E se mudares de ideias quanto a ter um blog, dou-te uma mãozinha se quiseres.
Beijo, maçarico.

Anónimo disse...

O Baleal é sem dúvida a praia da minha vida...vou para lá de férias desde que nasci...é a única praia que eu considero "minha", é lá que me sinto em casa, é lá que me sinto em paz e aconchegada, é lá que estão marcadas as minhas histórias e infância e adolescência, muitos amores e desamores, muitas festas, muitas noitadas, muito amigos...amigos para a vida e que também eles entendem este laço tão único e especial que se tem com este local mágico...
Anseio o ano inteiro para voltar para lá e para me deixar abraçar por aqueles raios de sol e pelo poder das ondas (sobretudo nas escarpas da ilha...absolutamente delicioso!)...
Poderia ficar aqui a minha vida toda a descrever o Baleal e a ligaçao fortíssima que nos une...mas que gosta percebe do que falo..