quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Memória


Um único objecto


São tantas as coisas que se misturam
para que a memória devolva um único objecto:
as toalhas e um cântaro com água, uma caixa de música,
as manchas da humidade nas fotografias

da parede, a chuva a bater nos vidros da janela,
a escaleira de pedra, uma árvore. Mas antes
a água primeiro escorrendo num fio por entre
os caules das ervas; as argilas, os finíssimos grãos

da aluvião; uma horta defendida pelos muros
altos; os matos; o bosque: só depois
o segredo de curar ou enlouquecer
tocando com as mãos nos ombros das crianças

só depois da casa e dos caminhos de terra
batida; só depois dos minúsculos açudes e do labirinto
dos canais de rega; só depois das sementes
espalhadas num chão lavrado; só depois do fogo

e do rumor do vento nos arames das vinhas.
São tantas as coisas que se misturam
para que a memória devolva um único objecto:
a faca de cortar o pão.

(José Carlos Barros)

Imagem - Exploding Raphaelesque Head, de Salvador Dali - in O Século Prodigioso

5 comments:

Lord Broken Pottery disse...

Ana,
São tantas as coisas que se misturam para que a memória devolva um único objecto.
Tenho dúvidas. Serão assim tantas coisas, o que retorna seria único? Haveria uma forma diferente também válida de dizer: Alguns pequenos detalhes, poucas coisas, e a memória nos devolve o mundo.
Beijão

ana vidal disse...

Muito bem dito, milord. E mais verdadeiro ainda, meu caro escritor. Quem disse que você não é um poeta?

Beijo
ana

JG disse...

O poema só se inventa através das coisas vividas. E este é exemplar.
Belíssimo.

Bjj

Ana, experimentei a tua ferramenta de tradução que transforma este poema e os comentários numa caisa surrealista, tal como o quadro que o ilustra :)))

ana vidal disse...

É verdade... nem imagino o que pensam de mim os que me traduzem para outras línguas! Tens um bom exemplo lá no teu blog, o texto que traduziste é de morrer a rir.

bjs

ana vidal disse...

JG, já incluí a origem do quadro do Dali. Tinha-me esquecido. O seu a seu dono.