terça-feira, 10 de julho de 2007

Café Avenida


É-nos possível viver sós,
desde que seja à espera de alguém

Gilbert Cesbron


Paulo César estava finalmente reformado. Anos e anos a suspirar por dias como aquele, sem obrigações nem horários. Noites a fio a contar os meses, depois os dias e, por fim, as horas que o separavam da liberdade.

Tinha sido uma difícil vida de luta. Pouco dinheiro, muito trabalho. Mesmo assim, não podia queixar-se muito: havia colegas seus, bem mais novos do que ele, que tinham negociado o despedimento da empresa por uma indemnização e agora estavam em pior situação. O dinheiro acabara-se e não arranjavam novo emprego. Mentalmente, deu graças a Deus por ter conseguido aguentar a pressão daqueles últimos anos de loucura e esperar pela reforma natural. Era uma reforma parca, claro, mas ia dando para viver. Toda a vida tinha sido um homem frugal, habituara-se a contar os tostões desde muito novo. E depois – infelizmente! – o que ganhava era só para si… a mulher tinha-lhe morrido muito cedo e os filhos estavam emigrados na África do Sul, não os via há muitos anos já. Sabia que tinha dois netos de um deles, mas não os conhecia a não ser por fotografia.

Ainda tinha pensado, por duas vezes, arranjar mulher de novo, mas o destino não tinha querido assim. Uma delas, a primeira, era sua colega na fábrica. Uma solteirona ainda fresca e bonita, mas sacudida, de modos bruscos. Tinha engraçado com ela por lhe parecer um desafio a sua forma de responder aos piropos dos homens, com grande desenvoltura e mantendo-os à distância. Era uma mulher séria, portanto. Um bom prenúncio. Ninguém nunca ousara dizer nada dela. Ele tinha enviuvado há pouco tempo e sentia ainda muito a falta de uma mulher em casa. Aquela pareceu-lhe um bom aconchego para si e para os filhos, até porque não tinha outros que fossem dela e já não estava em idade de se aventurar em maternidades perigosas. Instigado pelos colegas começou a fazer-lhe rapa-pés, a sentar-se ao pé dela na cantina para o almoço, e até lhe ofereceu uma vez uma caixa de chocolates que trouxe de propósito de Badajoz, de uma excursão organizada pela Junta de Freguesia. A princípio, o seu interesse por ela era mera conveniência de situação mas, aos poucos, a dificuldade da conquista foi alimentando o desejo e uma intensa vontade de conhecê-la melhor. Tomou-se de amores por ela, escrevia-lhe papelinhos nas horas de trabalho, com convites para passeios de domingo que ela declinava sempre, sem excepção. Um dia decidiu-se mesmo, já desesperado. Parecera-lhe, naquele dia – ou tinha sido um dos companheiros que lhe dissera, já não se lembrava – que ela estava finalmente receptiva. Perdeu a cabeça, arriscou tudo – aproveitou a hora do café para agarrá-la pela cintura e dar-lhe um beijo testemunhado por todo o refeitório e que foi, aliás, muito aplaudido. Foi a morte do artista. Ela não percebeu nada e achou que ele estava a gozar com ela, ou que queria só farra. Desastrada e furiosa, envergonhou-o em frente dos companheiros de labuta com um sermão altivo e meia dúzia de epítetos fatais, tais como “velho baboso”. E ele que nem era velho, nessa altura. Ferido de morte, arrastou a sua desolação por alguns meses, encerrado numa tristeza vexada e sofrida à vista de todos. A ela, nunca mais dirigiu palavra. Pouco tempo depois, para seu grande alívio, ela mudara de emprego.

Mas o tempo encarregara-se de diluir o desgosto e a chacota dos amigos, e a rotina voltara a instalar-se na sua vida. É claro que várias mulheres animaram muitas das suas noites de viúvo, quase sempre mulheres da vida ou, mais raramente, encontros de solidões partilhadas, que não duravam muito nem se solidificavam a ponto de deixar adivinhar uma hipótese de futuro.

Mas, poucos anos depois daquele primeiro desaire, Paulo César voltara a apaixonar-se. Violentamente, como não pensava já ser possível. Os filhos iam-se criando com a ajuda das vizinhas, todas gostavam deles. Eram dois rapazinhos dóceis e franzinos que não davam grandes trabalhos, tinham notas razoáveis na escola e não se metiam em alhadas. Eram filhos de muitas mães, mas ele sabia que havia neles uma tristeza inconfessada por não terem uma a que chamassem legitimamente sua.

Talvez por essa consciência, ou talvez apenas pelo seu próprio desamparo, começou a interessar-se por uma dessas vizinhas, viúva como ele. Era uma mulher ainda bonita, de formas voluptuosas e cabelos negros, um pecado ambulante que perturbava todos os homens do bairro e deixava as mulheres de pé atrás. Mas ela era recatada, cumprindo a custo – adivinhava-se pelos suspiros constantes – a abstinência exigida pela sua condição de viúva séria. Tinha três filhos da idade dos seus, companheiros de escola e de brincadeiras. Estava até, na escala social do bairro, uns degraus acima das outras – a viuvez precoce atirara-a para ali, onde as rendas das casas eram mais baixas. Tudo parecia perfeito, portanto. A comunidade abençoaria esta união de viúvos. Discretamente, Paulo César começara a fazer-lhe a corte, com respeito e seguindo as regras. Ela encorajara-o logo, agradecida, e em pouco tempo já rebolavam na cama de ferro dele, a coberto da noite e longe das crianças de ambos, estrategicamente reunidas em casa dela. Foram tempos felizes, de uma fartura sensual que parecia não ter fim. Ela revelara-se surpreendente: nas noites de folia era mestra nas artes do kamasutra (confidenciou-lhe um dia, corando, que o major seu marido tinha sido o seu professor, depois de uma comissão de serviço na Índia portuguesa); e de dia era uma modista incansável e admirada – fazia vaporosos tutus de bailarina para a Companhia Nacional de Bailado, aumentando assim um pouco mais a pensão de viúva. As suas mãos de ouro faziam maravilhas, tanto de dia como de noite. Mas havia um óbice ao idílio: ela não queria casar, exactamente por causa dessa pensão, que perderia imediatamente se o fizesse. E também não aceitava tornar pública aquela relação irregular, porque isso arruinaria a sua reputação impecável. Ao contrário do que seria de esperar, foi ele quem começou a cansar-se da situação. Aquela exaltação oriental já não lhe bastava: queria uma mulher com quem pudesse passear abertamente, viver e criar os filhos, e os argumentos dela pareciam-lhe uma humilhação porque salientavam a sua inferioridade financeira. A versão alfacinha das mil e uma noites durou pouco mais de um ano e depois ele foi-se afastando. Para seu maior desgosto e vexame ela acabou mesmo por casar-se, algum tempo depois, com um antigo companheiro de armas do marido, recentemente promovido a capitão. Com esta promoção social voltou a sair do bairro e foi viver para um sítio mais condigno com a sua nova condição. Estava reposta a justiça. Ele sofreu durante uns tempos, mas acabou por conformar-se e nunca mais pensou em casamento.

Foi-se transformando, aos poucos, num homem solitário. Os filhos fizeram-se homens e acabaram por aceitar, ambos, o convite de uns parentes da mãe para trabalhar na África do Sul. Por lá havia muitas obras e falta de bons pedreiros, disseram-lhe.
- É uma vida melhor, filhos, não sou eu que vou prender-vos aqui.
A princípio ainda planeou ir vê-los, escrevia-lhes frequentemente e contava os dias até ao Natal, mas essa viagem nunca se concretizou. Por lá casaram e tiveram filhos mas, apesar das cartas em que manifestavam sempre a intenção contrária, nunca mais voltaram.

E agora estava mesmo só, com o resto da vida pela frente e sem ocupação. Valia-lhe a leitura – um prazer que descobrira com a viúva do major e que alimentava diariamente devorando, um a um, os livros desirmanados (quase todos destinados a leitores infantis ou adolescentes) oferecidos à biblioteca da Junta, agrupados sem qualquer critério por uma funcionária ainda mais ignorante do que ele. Há três meses que a sua rotina era esta: de manhã cedo dava um passeio pelo jardim do bairro, ia ao pão e voltava para casa, cozinhava qualquer coisa, almoçava e dormia uma curta sesta. As tardes eram mais problemáticas: nunca tivera outros hobbies com que pudesse entreter-se agora e não lhe apetecera ainda alinhar com os outros reformados do bairro, que lhe pareciam muito mais velhos e perdidos do que ele e lhe lembravam a sua futura condição. Jogavam a bisca e a lerpa no jardim, fumavam e deixavam correr os dias numa espera resignada. Parecia-lhe deprimente. De vez em quando saia dali e ia até à Baixa lanchar e ver as montras. E, muito mais raramente, alinhava com alguns dos vizinhos numa excursão da Junta a Badajoz, a Évora ou ao mosteiro da Batalha. Mas evitava estes convívios porque eram sempre dominados pelas beatas e ele não tinha paciência para fervores religiosos. Aos poucos, começava a dar-se conta de que a situação de reformado não era assim tão aliciante como pensara. Para passar as horas até ao jantar, ia para o Café Avenida – um nome pomposo para uma modesta localização, num beco que fazia esquina com uma rua estreita – e entretinha-se com o movimento, enquanto lia o jornal ou um livro trazido da biblioteca. Estava a ficar um filósofo, pensava ele, de tanto observar os outros. Já conhecia quase toda a gente que parava por ali, mesmo os que não eram clientes diários.

Naquela tarde, havia uma nova presa para a sua curiosidade: olhou com interesse redobrado um homem que ocupava, sozinho, uma mesa afastada da sua e que falava em voz baixa para um telefone portátil. Nunca o tinha visto por ali. Numa avaliação sumária pareceu-lhe uma figura triste, com o aspecto desabrigado e patético de uma personagem de Dickens. Chamara-lhe a atenção a voz monocórdica e estranhamente ritmada, como que recitando uma ladainha. Não conseguia ouvir o que dizia, mas parecia lamentar-se intimamente, como se, do outro lado da linha, não estivesse ninguém. Assim, a falar, era um tipo curioso: embora a expressão fosse de desalento, parecia saborear as palavras com a volúpia de um gourmet, mastigava-as lentamente, sílaba a sílaba, como se fossem ovinhos de codorniz. Não fora esse tique de diseur e nada nele, numa observação desatenta, despertaria o menor interesse: em tudo o resto era irremediavelmente vulgar. Andaria pelos cinquenta e poucos, diziam-no as rugas na testa e o cabelo, ainda farto mas já mais branco do que escuro. Os olhos eram fundos e esquivos, sem cor definida. As mãos – juraria que estavam húmidas – mostravam-se irrequietas, nervosas, como as de quem tivesse abandonado o vício do tabaco e não soubesse já o que fazer com elas. Sobre o corpo franzino trazia uma camisola de lã puída, de um tom azul acinzentado, e umas calças escuras de fazenda. Tudo muito limpo, muito vincado, a denunciar mão de mulher ciosa da dignidade da sua pobreza. Esposa? Mãe? A avaliar pelo ar desajustado e pela ausência de aliança na mão esquerda, mãe, definitivamente.

Parecia desconfortável na cadeira, como se quisesse sair dali o mais depressa possível. Olhava em volta de vez em quando, tentando abranger com movimentos rápidos do pescoço todo o espaço da sala e sobretudo a porta do Café. Estaria talvez à espera de alguém, ou simplesmente temia ser ouvido. Porque as frases dirigidas ao bucal do telemóvel eram pronunciadas em voz velada, propositadamente contida. Pelo menos, assim parecia. De tempos a tempos deitava um olho rápido ao relógio antigo de madeira e vidro gravado, na parede mesmo à sua frente. Sobre a mesa quadrada, uma xícara de café vazia e um jornal aberto na página das palavras cruzadas, criteriosamente disposto de forma a acompanhar sem desvios a esquadria do tampo. Sobre o jornal, rigorosamente ao centro, uma esferográfica e um par de óculos de lentes grossas. Um metódico, portanto. No mínimo. Talvez um maníaco, um obcecado pela ordem. Um desses perfis que rondam perigosamente o descaminho sem remédio, às vezes provocado pela mínima alteração à rotina.

Para acompanhar este imperdível pitéu que os deuses do ócio lhe traziam de presente em mais uma tarde de horas longas, nada como outro cafezinho. Distraiu-se da sua presa, por momentos, para chamar o criado. Quando voltou a reparar no homem, alguma coisa tinha mudado. Olhou-o de novo, agora com acrescida curiosidade: na expressão que, há pouco, revelava apenas timidez e desconfiança, lia-se agora o pânico. O homem estava claramente perturbado, como que arrependido de um passo irreflectido, cujas consequências lhe fugissem ao controle. O telefonema acabara e agora estava imóvel, de olhar fixo e semblante carregado. Olhou uma vez mais o relógio de parede, disfarçadamente. Há pelo menos meia hora que ali estava sentado, em crescente ansiedade. Suava ostensivamente, como se um sol de Agosto tivesse invadido, de repente, aquele fresco dia de Outono. Pobre criatura, pensou. O que lhe teria acontecido agora?

Sem dar por isso, Paulo César começou a olhar também, ansiosamente, para a porta do Café. O homem deitara-lhe um olhar rápido e cúmplice, ou era imaginação sua? Estaria a pedir ajuda? O que poderia fazer por ele? Outro olhar, agora mais explícito. Ele PRECISAVA mesmo de ajuda mas, por qualquer razão, não podia ou não queria pedi-la directamente. Concentrou-se, procurando raciocinar. Não sabia no que estava a meter-se, mas tinha que agir de qualquer forma. Não era pessoa para deixar um ser humano naquela situação, sem fazer alguma coisa. Pensou em levantar-se e dirigir-se à casa de banho, sabendo que esse percurso o obrigaria a passar pela mesa do outro. Assim, estaria suficientemente perto se ele quisesse dizer-lhe alguma coisa em voz baixa, ou até passar-lhe um papel. Sorriu intimamente. Andava a ler demasiados romances policiais! O homem tinha um ar aflito, de facto, mas nada fazia prever que estivesse a ser perseguido ou impossibilitado de comunicar com as outras pessoas… bem, alguma coisa ele queria com aqueles olhares disfarçados, como que a pedir socorro.

Olhou uma vez mais na direcção do homem, encorajador, e levantou-se devagar. Caminhou lentamente, de propósito, passando como que em câmara lenta pela mesa do outro. Nada. Dirigiu-lhe mais um olhar antes de entrar na casa de banho, fazendo-lhe um sinal quase imperceptível com os olhos. O outro corou violentamente e virou a cara. Caramba, que expressão era aquela? Medo? Repulsa? E, de repente, percebeu. Ohhhh, diabo! O filho da mãe pensa que eu sou paneleiro! Ficou tão atrapalhado que se precipitou para a casa de banho, esbarrando com um rapazinho que vinha a sair. Encostou-se à parede, a suar. E agora? Desfazia o equívoco com uma explicação que podia complicar ainda mais a situação, ou fingia que não tinha acontecido nada e voltava para o seu jornal? Não sabia o que havia de fazer. A mania de te meteres onde não és chamado! Praguejou baixo e saiu com um andar estudadamente masculino. Pelo menos, pareceu-lhe. O outro continuava na mesma posição e baixou os olhos quando passou por ele. Paulo César esgueirou-se para a sua mesa e sentou-se de costas para o homem, impossibilitando-se assim de olhar para ele, a partir daí.

Algum tempo depois, entrou no Café uma mulher magra e já um pouco curvada, de cabeleira armada e loira mas onde eram bem evidentes as raízes brancas. Estava maquilhada em excesso para aquela hora, tinha um batom encarnado e sombra azul nos olhos. A roupa era berrante e justa, completamente desadequada à sua idade, e um perfume intenso e enjoativo espalhara-se pelo Café, com a sua entrada. Apesar de todo aquele espalhafato, por baixo da pintura as feições eram ainda interessantes e o corpo conservava alguma elegância. Paulo César olhou com curiosidade aquela velha gaiteira, pensando de repente, com um sorriso íntimo, que ela deveria ter mais ou menos a sua idade, pelo que estava a chamar velho a si próprio. Olá!! Dois novos numa tarde só, que sorte! Aquela também não era dali do bairro!

A mulher olhou à sua volta, hesitante, como que avaliando os presentes. Depois, avançou decidida para a mesa de Paulo César e pediu-lhe, com um sorriso:
- Posso sentar-me?
Ele estranhou a pergunta, intrigado com a atitude dela. Afinal, a maioria das mesas estava vazia! Não querendo ser indelicado, gaguejou, ao mesmo tempo que a convidava com um gesto da mão e se levantava para puxar-lhe a cadeira:
- C-claro. Faça favor.
Ela voltou a sorrir e sentou-se, enquanto lhe piscava um olho, coquete:
- Obrigada. Que cavalheiro… o senhor é mesmo um cavaleiro andante! Oferece-me um refresco? – e, praticamente sem transição - Olhe, sabe uma coisa? Confesso que estou aliviada.
- Desculpe?? – Paulo César estava abismado e começava a ficar incomodado com tudo aquilo.
- Sou a Rosa Solitária… sou EU! Está decepcionado? Bem, o senhor também é mais velho do que me disse, seu maroto!
- Perdão, a senhora deve estar a fazer confus…
Ela interrompeu-o, impaciente:
- Ora, não seja tímido. Está a fingir que não sabe quem eu sou?
De facto, há já uns momentos que Paulo César tentava lembrar-se de onde a conhecia. A cara era-lhe vagamente familiar. Talvez de uma das excursões…
- Mas eu conheço-a, minha senhora? Peço desculpa mas não me lembro de onde.
Ela riu-se, divertida. Depois disse, com uma inflexão sugestiva:
- Bem, conhecer, conhecer… só pelo telefone, não é? – e, muito devagar - Cavaleiro Andante, Rosa Solitária… então? Ainda há pouco…
Ele franziu as sobrancelhas, interrompendo-a por sua vez:
- Pelo telefone?? Mas… – Estava cada vez mais confuso. A mulher impacientou-se:
- O senhor respondeu ao anúncio… e combinou encontrar-se comigo aqui! Se não, como é que eu ia saber da existência deste Café? Não sou daqui!! Mas, se está arrependido…
Agora fazia uma espécie de beicinho. Patético, nesta idade!, pensou ele. Começava a achar a situação muito desagradável. Empertigou-se e disse-lhe, muito sério:
- Ouça, minha senhora. Eu não combinei nada consigo… de facto, a sua cara não me é estranha, mas juro-lhe que não combinei nada… - e, subitamente, fez-se luz na sua cabeça. O outro!! O encontro era com ele! Respirou fundo, aliviado:
- Espere aí, já sei! Está a fazer confusão com aquele senhor, ali ao fundo. Foi ele que lhe telefonou, com certeza! – e virou-se para trás, para indicar-lhe a mesa… vazia! O outro tinha-se esgueirado sem dar nas vistas, escapando-se ao encontro talvez mesmo antes de conhecer a sua Rosa Solitária! A timidez extrema tinha-o feito arrepender-se, e o seu pretenso assédio tinha contribuído para acabar de afugentá-lo.
Ela ficou furiosa:
- Está a brincar comigo? Qual senhor?
De facto, a única mesa ocupada, além da sua, tinha um casal de namorados completamente alheio ao resto do mundo. Começou a sentir-se mal.
- Deve ter-se ido embora… - engasgou-se. Ela ofendeu-se, começando a perder a compostura:
- Olhe lá, seu Cavaleiro Andante de meia tigela, se está arrependido diga, de uma vez por todas! Não invente desculpas… E você também não é nada de especial, o que é que julga? Se calhar acha-se algum galã, não?
- Juro que estava ali um senhor à espera de alguém… ele é que deve ser o seu Cavaleiro Andante. E não é nada do que está a pensar… eu não quis ofendê-la, acredite.
Então ela acalmou-se, caindo em si:
- Está bem, pronto, acredito. Mas a verdade é que eu não vejo ninguém aqui, além de si. Só se esse senhor não ficou satisfeito com o que viu e foi-se embora… – agora a voz era de uma tristeza confrangedora – e, se calhar, teve toda a razão. Já não tenho idade para isto… não sei o que me deu para pôr o anúncio! Não sou nada assim, é raro pintar-me e nunca me vesti desta maneira. Sabe, é a solidão que nos empurra para estas coisas… nunca casei, não tenho filhos, a única companhia que tive na vida foram os inquilinos de um quarto que alugo… acredite, foi a primeira vez que fiz isto… ah, mas juro que nunca mais caio noutra, ou não me chame Josefina Saraiva!! Estou tão envergonhada…
- Josefina Saraiva??!! – Pela segunda vez naquela tarde, fez-se luz na cabeça de Paulo César: à sua frente, quase quarenta anos depois, choramingava, acabrunhada, a mulher que o tinha ridicularizado no refeitório da fábrica, perante todos os colegas!

Mas tudo se tinha esfumado com os anos: a raiva, a humilhação, até o desconforto. Restava, apenas, um vago enternecimento por aquela figura frágil e carente, que já tivera um dia toda a arrogância da juventude. Ao mesmo tempo que chegava a esta conclusão, descobriu também como era reconfortante reencontrar alguém do seu passado, alguém com quem partilhar todas as memórias que estavam aprisionadas dentro do seu coração. Olhou-a, comovido, reflectindo em como eram ambos vítimas da mesma sorte, afinal: uma enorme e irremediável solidão. Irremediável? Paulo César deu consigo, numa fracção de segundo, a tomar a decisão mais importante da sua vida. Endireitando-se na cadeira aclarou a voz, tomou balanço e disparou, antes que se arrependesse:
- Josefina, peço-te perdão. Menti-te ainda agora, não havia aqui mais ninguém à tua espera. Mas não te menti pelas razões em que estás a pensar: é que fiquei com medo de que me escorraçasses, pela segunda vez! Não me reconheces? Assim que te vi entrar, percebi que o destino nos tinha pregado uma partida: eu sou o Paulo César, lembras-te? E, se tu quiseres, gostava muito de ser o teu Cavaleiro Andante.

Ela não disse nada, sufocada, mas uma grossa lágrima abriu caminho através da camada de base que lhe cobria a cara, arrastando consigo o rímel preto e a sombra azul dos olhos. Paulo César levantou-se, limpou delicadamente com o lenço o triste borrão colorido, ofereceu-lhe o braço com um gesto galante e disse:
- Vamos, minha Rosa Solitária? Ainda temos um resto de tarde para passear, e tu não conheces o jardim do nosso bairro. É muito bonito, sabes?


(AV, Gente do Sul)

4 comments:

Mad disse...

Tu devias escrever para cinema ou televisão. Os teus personagens são sempre mais reais e importantes que o cenário, que às vezes nem existe, ou tu nem sequer o mencionas.

Lord Broken Pottery disse...

Av,
Deliciosa história, fabulosamente bem escrita. Concordo com o comentário da Mad, a quase ausência de cenários justifica-se pelo foco total nas personagens. Não sei se conheces, mas lembrou-me Gabriel Garcia Marquez de o Amor No Tempo Do Cólera. Fascinam-me essas histórias de amor que duram além do tempo. Se formos ver temos aí uma história de amor. Amor doído, cru, quase marginal, mas ainda assim amor. Ouvi certa vez que os melhores textos calcam-se em contrastes. Poucas vezes vi alguém lidar tão bem com eles, as nuances de sentimento povoam o desenrolar da vida de Paulo César. Há também um clima noir que proporciona à trama um enorme charme. Adorei!
Beijo

av disse...

Mad,
Tens razão, a paisagem humana para mim é sempre mais importante. Quando fiz um curso de guionismo, como exercício adaptei um dos meus contos para guião televisivo e a transformação foi fácil. Adoro a representação. Talvez por isso, agora estou a aventurar-me com uma peça de teatro, mas ainda está tudo muito no princípio.
bjs

Milord,
O que dizer, depois de tão esmagador elogio? Ser comparada a Garcia Marquez, e ainda por cima por um escritor, deixa-me sem palavras. Exagero seu, evidentemente. Só posso agradecer e comover-me com a simpatia.
Claro que conheço o Amor em Tempo de Cólera (é assim que o título está traduzido em Portugal), é um dos meus livros preferidos de sempre! Também me fascinam as histórias de amor que perduram, sobretudo as menos ortodoxas. E essa está contada com uma sensibilidade e uma ternura como nunca vi em nenhum outro escritor, num tema que poderia resvalar para o grotesco, não fosse a mestria de Gabo.
Espero que tenha gostado da minha homenagem ao Vinicius, outro dos meus eternos.

Beijo grato
Ana

Poesia Portuguesa disse...

Excelente conto e um final imprevisível!
Espero que não se imprte que tenha levado "emprestdo" um poema seu.

Um abraço ;)