domingo, 9 de março de 2008

Feira de Velharias (1)

House - um vício de estimação

Deixei-me viciar. Não vejo novelas, e desde Sete Palmos de Terra que não seguia uma série. Mas há uns tempos, confesso, voltei a ligar a televisão para ver o Dr. House. Religiosamente.

Não sou a única, claro. A série tem sido um estrondoso sucesso por todo o mundo, e em Portugal também. Não sei se por estarmos todos cansados do moralismo insuportável do Dr. Phil e das xaropadas lamechas da Oprah, aderimos sem restrições a este médico cínico, mal educado, insensível e anti-ético, cujo comportamento nega em absoluto todos os valores sagrados que esperamos encontrar nessa profissão. Talvez estejamos todos fartos dos politicamente correctos que, do alto da sua razão incontestável, nos obrigam a afogar os individualismos e a deixarmo-nos diluir na manada. Talvez nos dê um certo gozo sádico ver alguém que é bem sucedido arrasando os outros, coisa que tantas vezes gostaríamos de ser capazes de fazer. Ou talvez, por distracção, tivéssemos subestimado o poder sedutor do Mal, e a personagem de House nos atraia por personificar essa eterna tentação do abismo, tão antiga como o mundo. Porque o maior fenómeno é esse: não vemos House como um vilão, mas sim como um simpático antipático.
Criaram-se clubes de fãs e choveram pedidos para que se prolongassem, ad eternum, as suas brilhantes crueldades. A rainha Isabel II agraciou o actor com um título nobiliárquico, a Academia deu-lhe um Óscar televisivo e a série ganhou vários prémios de prestígio. Há até um site para os adictos - Housisms - com as melhores tiradas "à House" de cada episódio, nas três épocas da série. Enfim, o enfant terrible é amado e todos se lhe renderam.
Há, evidentemente, explicações mais pacíficas para tanto êxito: o texto é bom e tem um humor inteligente, o charme britânico e os olhos azuis de Hugh Laurie são irresistíveis, a dor física que o acompanha sempre justifica o seu comportamento, ele afinal no fundo não é assim tao mau, etc. Acrescente-se à lista o que se quiser, a verdade é que nenhum de nós gostaria de ter um tipo destes à cabeceira, mas todos ficaríamos mais descansados sabendo-o, no covil do seu gabinete, a decifrar enigmas médicos e a diagnosticar a nossa doença. House representa o cérebro puro, totalmente desprovido de qualquer forma de emoção ou daquilo a que chamamos humanidade. E como o seu mundo é o do sofrimento, muitas vezes extremo e mesmo terminal, o choque que nos provoca essa atitude é ainda maior. Mas ele é um cientista, e o seu único fito é o Conhecimento. Para obtê-lo, todos os fins justificam todos os meios. Tem um ego desmesurado, despreza fragilidades e sentimentos, trai confianças e não perdoa erros. É detestável, em suma. Mas nós, os viciados na série, gostamos dele mesmo assim. E vamos ter saudades, porque ela vai acabar. Que pena!
Nota: Ao domingo, passa a haver Feira de Velharias no Porta do Vento. São textos republicados, com tempo suficiente para já ninguém se lembrar deles. Desculpem a preguiça, mas o domingo é mesmo para estas coisas...
Começo com este sobre o dr. House, já que começou uma nova série há pouco tempo. Publiquei-o a primeira vez em 28-06-2007. Apaguei os comentáros antigos.

14 comments:

adelaide amorim disse...

Valeu, Ana! House é um must, a série não pode acabar. Você pintou um retrato fiel desse médico que esnoba títulos e juízos alheios.
Creio que, além dos olhos azuis, a gente gosta, nele, da porção House que existe em todos nós. Mas que a imagem ajuda, ajuda - e como!
Beijos

adelaide amorim disse...

Ana, acabo de ver seu post do dia 7 de março, que tem um título praticamente igual ao que escrevi no dia 8, no Umbigo do Sonho. Só faltaram as reticências. E juro que não o havia lido ainda. O conteúdo de cada texto é semelhante, embora o seu me pareça mais contundente. Tivesse visto seu post antes, teria mudado o título, mas agora que já foi lido e comentado, não sei se teria utilidade fazer isso. Mas se você preferir, faço sim, sem problemas.
Beijo e desculpe o "plágio" involuntário.

av disse...

Adelaide querida, isso não é um plágio, é uma coincidência. Significa só que estamos em sintonia neste tema, e ainda bem. Era o que faltava ter que mudar o texto ou o título!
Um beijinho

RAA disse...

É incrível, mas perdi o balanço para as séries, desde que me entrou a TVcabo em casa. Estou limitado ao telejornais, aos Marcelo, à Quadratura, ao Eixo do Mal e a alguns Prós e Contras. Não fora o Canal disney e afins, a minha tv seria paupérrima.

av disse...

Eu também não vejo praticamente nenhumas séries, hoje em dia. Abri uma excepção para o House, embora esta nova série já não seja tão boa como as anteriores. Mas continuo a gostar, apesar de tudo. E vejo, às vezes, uma ou outra da britcom. E, mais uma vez, já foram bem melhores.
Mas tudo isto pode ver-se nos canais portugueses, vizinho. Aliás, estou igual: só preciso do Meo (acabei com a Tv Cabo depois de uma longa zanga) para a SIC Notícias, o Travel e pouco mais.

Sofia disse...

Mas que bela ideia 'preguiçosa' que tu tiveste, a de recuperar os teus 'tesourinhos'!

Eu também sou fã do Dr. Casa, não só porque o senhor até é engraçadito (coisa pouca), mas porque a série é óptima (também acho que as anteriores eram melhores).

É como eu digo, ele podia dar-me as 'picas' todas que quisesse. Tenho sempre um misto de sentimentos de 'pena' e 'bem-feita' das dores que o pobre rapaz tem, mas uma coisa é certa, por muito bonito que seja, não queria ser enfermeira dele... quer dizer, se fosse só por um dia... ou dois...

beijos miúda

O Réprobo disse...

Pois não posso pronunciar-me, já que nunca vi episódio housesco. Pergunto-me é se a saída do cafageste entre as Minhas Amigas de língua Portuguesa não se deverá à identidade da tradução do nome dele com a conjugação de certo verbo sempre susceptível de românticas expectativas...
Psi de serviço
Dr. Fraude
Beijinho, Querida Ana

av disse...

LOL! Dessa não me lembraria, caro dr. Fraude! E falo por mim - embora possa jurar não estar sozinha - não queria o House para marido nem que fosse o último homem do mundo! É daquelas personalidades que nos atraem mas depois nos saem caríssimas... para consumo externo tudo bem, mas em dose diária e caseira, jamé! (como diria um intelectual da nossa praça)
Um beijinho

Capitão-Mor disse...

È uma boa série mas continuo a prefirir o NIP/TUCK pelo toque quase surrealista de alguns episódios. Ainda ontem ao rever o "Sensibilidade e Bom Senso" dou de caras com o Dr.House travestido de Lorde inglês.
Boa semana para ti!

Júlia Moura Lopes disse...

eu não gosto mesmo nada da série...

Tatiana disse...

ADORO!!!!!!!!!!!!!!!!

av disse...

Sofs, com que então uma pica, hein?

Júlia, se todos gostassem do mesmo, o que seria do amarelo?
(Por acaso eu gosto imenso de amarelo)

Oi, Tatiana! Bom te ver por aqui. Vejo que também és fã...

Beijos, meninas

Capitão, "travestido"?? Mas ele JÁ É um lorde inglês, ora essa!
;)

João Paulo Cardoso disse...

Bolas, com tanto revivalismo que por aí grassa, o meu novo blogue sobre velharias e recordações sortidas vai parecer... velho.

Beijos :)

av disse...

Pelo contrário, JP. O teu blog vai ser um must, ques as tuas velharias são de altíssima qualidade, sem asas partidas nem pires desencontrados. Quando é que arranca, afinal?
Beijinho