terça-feira, 8 de abril de 2008

Jamé dito


Estive a ouvir, deliciada, as justificações do ministro Mário Lino para as "frases infelizes" (palavras do próprio) que disse, num passado próximo de que todos nos lembramos, sobre a polémica localização do novo aeroporto.
Em entrevista à SIC Notícias, perante uma Ana Lourenço a lutar para conter o riso, Mário Lino voltou a meter os pés pelas mãos ao dizer que "jamé disse jamé", quem o disse foram os autores dos estudos apresentados. Tudo uma confusão dos media, portanto. Quanto à classificação da margem Sul como "um deserto", lá admitiu ter usado a expressão. Mas afirmou ter ficado genuinamente espantado com a repercussão que tais palavras tiveram nos autarcas atingidos e nos habitantes da margem Sul a quem tinha chamado beduínos (esta é minha, não foi ML que disse, claro), já que, no almoço onde a brilhante metáfora fora proferida, ninguém se tinha mostrado minimamente incomodado com ela.
Ora, daqui concluo que Mário Lino conhece mal os portugueses. Em primeiro lugar, a esses almoços e jantares dos políticos vai-se para comer à borla, e nunca para ouvir o que quer que seja. Depois, uma refeição é uma coisa sagrada. Desde que seja farta e bem regada, a benevolência é garantida. Mais depressa os convivas se amotinariam por um bacalhau sem sal ou uma mousse deslaçada do que por uma ofensa, mesmo que fosse às senhoras suas mães.
A seguir, garantiu vir a respeitar religiosamente o período de nojo imposto pela lei antes de aceitar um cargo de administrador numa grande empresa pública ou privada, quando sair do governo. Ou seja, ficamos a saber que já está a preparar a reforma.
Por fim, quando eu já estava a desesperar de encontrar algum interesse no desastrado ministro, algumas características pessoais suas, lidas pela jornalista no teleponto, salvaram-no do abismo sem remissão. Pelo menos aos meus olhos. Parece que Mário Lino é um fervoroso amante de ópera, tem assinatura nos concertos da Gulbenkian e é fumador de cachimbo. Por estas, confesso humildemente que não esperava.
Mas também fiquei a saber que exercita os neurónios nas tabelas do Sudoku, e isso é que me deixou desconfiada: ou treina pouco ou faz batota, porque os resultados dessa intensa actividade intelectual não se viram até agora, jamé...

15 comments:

estrelicia esse disse...

Apreciei, devidamente, o mapa de Portugal segundo o Mário Lino. Nada de novo! Só não percebi é o que ele fez às ilhas: doou-as ou vendeu-as?

Teresa disse...

«(...) vai-se para comer à borla, e nunca para ouvir o que quer que seja. Depois, uma refeição é uma coisa sagrada. Desde que seja farta e bem regada, a benevolência é garantida. Mais depressa os convivas se amotinariam por um bacalhau sem sal ou uma mousse deslaçada do que por uma ofensa, mesmo que fosse às senhoras suas mães.»

Brilhante, minha querida. Simplesmente brilhante.

Once In a While disse...

Caramba! Foi preciso vir aqui para ficar a perceber tudo certinho direitinho (risos) Crystal ! ;)

O Réprobo disse...

Claro que os eufenismos da Ana melhoram muito qas declarações linosas. Os habitantes da margem Sul sentiram-se não crismados de "beduínos", mas de simpáticos quadrúpedes de duas bossas...
O que, vendo bem, pela notável descrição do postal, também se harmoniza: os convivas foram lá armazenar comida para a contestação posterior e o Ministro também meteu água que chegue para a travessia do deserto que anunciou. Ora que animalzinho é um ás neste procedimento?
Beijinho
PS: tenho de dizer que a Teresa ficou Maravilhosa na fotografia!

aviador disse...

Não percebo porque é que a SIC ou qualquer outro canal não passam as palavras do ministro no referido e bem regado almoço.
Para sermos verdadeiros e honestos, ele tem razão.
Aquilo que ele disse foi que os técnicos tinham referido que um aeroporto na margem sul "Jamais"!
Estes são os factos. O resto é pura especulação.
Uma cois é ML ter-se embriagado no próprio discurso não devendo vir com francesismos inconvenientes, outra a honestidade de processos dos quais a comunicação social e a politica partidária andam muito arredadas.

fugidia disse...

Hum...
Eu, que acabei de almoçar, muito bem aliás, sinto-me extremamente benevolente e, acimna de tudo, com um enorme deserto de ideias para comentar mais do que enviar-lhe um beijo de agradecimento pelo amplo sorriso que me colocou no rosto.
:-)

Allan Robert P. J. disse...

Olá Ana,

Vim fazer um convite para uma blogagem coletiva. Dia 22 de Abril é o Dia da Terra. Precisamos rever e refletir sobre as nossas ações. Se puder, participe e divulgue. Para maiores informações, dê uma lida nesse links:

http://www.verbeat.org/blogs/facaasuaparte/2008/04/dia-da-terra-convocacao-geral.html

http://www.ladybugbrazil.com/2008/04/06/blogagem-coletiva-pelo-dia-da-terra-22-de-abril/

Faça a sua parte.

João Paulo Cardoso disse...

Há um deserto de ideias na política e o resto é paisagem; daí muitos dos portugueses voltarem as costas à política.

Beijos.

cristina ribeiro disse...

É muito compreensível que a Ana Lourenço tivesse de lutar para não rir, mas é triste termos Ministros deste quilate, e que, ainda para aumentar o triste da coisa, se não enxergam. Ao ler o post, veio-me à memória Calisto Elói...

Capitão-Mor disse...

Belas reflexões sobre a política à portuguesa!!!!

av disse...

Nada de novo mesmo, Estrelícia.
As ilhas? Ficaram nas brumas do Império...

Teresa, não é assim que somos nós, portugueses?

Once, é difícil, dada a "clareza" do discurso de Mário Lino!

Paulo, é verdade o que diz. Eu não quis ser tão contundente...

Aviador, dou-lhe razão. De facto, a comunicação social aproveita-se destas figuras e não esclarece grande coisa. Mas eles prestam-se, não é? Com políticos destes, quem precisa de humoristas neste país?
Se assistiu ao discurso, então aqui fica reposta a verdade dos factos.

Fugidia, não tem nada que me agradecer. Vejo que a mousse do seu almoço não estava deslaçada...
;)

Allan, já lá vou ver os seus links. Claro que colaboro no dia da Terra, embora não goste de "dias de".

João Paulo, não costumas falar tão a sério. Assim estranhamos...

Cristina, isso é verdade. E com Anjos tão pouco convincentes como este, não admira que caiam em catadupa!

Capitão, a política portuguesa fala por si própria, infelizmente. Mas presumo que aí nos trópicos seja pior ainda.

Beijos a todos

PSB disse...

Curiosa a imagem do deserto da margem sul, com palmeira luxuriante estrategicamente plantada. Estará aqui também a mão do Ministro da Agricultura ou do do Ambiente, qualquer deles também grandes expoentes deste ministério?

samuel disse...

Belo post!
Período de nojo é dos termos mais bem caçados do léxico político.

Abraço

Luísa disse...

Minha cara Ana, às vezes, pressinto que é destes ministros disparatados ou descomedidos no discurso que podemos esperar mais genuinidade e franqueza. São, infelizmente, um pouco impróprios para consumo. A política assumiu-se já como a arte do engano e, por esse critério, a nossa preferência recai nos que falam muito e bem, sem realmente dizer nada.

av disse...

Samuel, tem toda a razão. É que assenta na política que nem uma luva!

Luísa, isso é uma grande verdade. Mas o problema é mesmo o que refere: são impróprios para consumo. Veja-se o Alberto João Jardim, expoente máximo da genuinidade e incontinente verbal até ao infinito: quem é que o leva já a sério?

beijos